95 por cento paralisou, afirma o sindicado

Greve dos médicos afecta hospitais

Durante os três dias que decorreu a greve, vários pacientes tiveram de regressar a casa. O Ministério da Saúde considera a greve “ilegal” e ameaça com tribunais, mas o sindicato classifica a justificação como um acto de desespero. Caso as reivindicações não sejam aceites, os médicos prometem nova paralisação.

Greve dos médicos afecta hospitais

Hospitais lotados, alguns pacientes a regressarem a casa após longa espera e recusa dos médicos em atendê-los. Assim estiveram os hospitais públicos esta semana. Tudo por causa da greve, marcada em protesto contra as más condições de trabalho e maus salários. O sindicato garante que aderiram 95 por cento dos profissionais.

Nos hospitais, encontravam-se disponíveis apenas os cuidados de quimioterapia e radioterapia, diálise, urgência interna, cuidados paliativos em internamento, imunoterapia com ligação aos doadores de sangue, além de serviços imprescindíveis à dispensa de medicamentos de uso exclusivamente hospitalar. Por sua vez, as consultas externas, cirurgias e seguimento de internados ficaram paralisados.

Quem tinha consulta marcada não teve outra solução. Como Gabriel Joaquim, que esperou dois meses para conseguir marcar uma operação a um cancro da próstata, no Hospital Américo Boavida. Teve azar. A operação ficou marcada para o primeiro dia de greve. Apesar do estado inicial, o caso de Gabriel exige cuidados urgentes sob pena de vir a agravar-se. Funcionário público, de 42 anos, teme que daqui a dois meses, altura que ficou remarcada a cirurgia, o seu estado possa ser mais grave, temendo mesmo não estar vivo.

No hospital geral de Luanda, Manuel Aristides, após várias tentativas, conseguiu finalmente ser atendido. Esteve, na segunda e terça, com a esposa que teve um parto por cesariana há um mês e tinha de fazer a consulta de controlo, mas sem sucesso.

Com uma procura de cerca de dois mil pacientes diários, o director clínico do hospital, Carlos Manuel, revelou que os serviços de cirurgias, consultas e seguimentos dos doentes ficaram “comprometidos”. “Garantimos que a greve não afectasse as urgências”, explicou, justificando que teve de redobrar os esforços de quem estava a trabalhar.

 

Ameaças

Num comunicado, o Ministério da Saúde (Minsa) anunciou “intentar uma acção para o decretamento da ilicitude da greve” junto dos tribunais, por considerar ter sido convocada por uma entidade “sem competências”, justificando que o sindicato se encontra em fase de constituição. Em resposta, o presidente do Sindicato Nacional dos Médicos (SINMEA), Adriano Manuel, considera uma “atitude de desespero” por parte do Ministério. “Só a ministra sabe onde é que tirou isso. Não foi bem aconselhada. Achou que as pessoas iriam desistir”, Por sua vez, Jeremias Agostinho, membro do conselho de disciplina do SINMEA, garante que a organização “é legal” e que a sua formação cumpriu com todas as orientações do Ministério da Justiça. “Como o ministério não responde em tempo útil, que é de um mês, é considerado aceitação tácita do sindicato”, explica.

Para Jeremias Agostinho, a ameaça é uma “jogada muito baixa, a ministra sentiu-se encurralada e queria paralisar a greve”. “Independentemente de ser legal ou não, há a componente das reivindicações serem totalmente a favor dos objectivos do ministério.”

O Minsa, tutelado desde Setembro do ano passado por Sílvia Lutucuta, promete responsabilizar disciplinarmente os profissionais que aderiram à greve. Sem se sentir intimidado, Adriano Manuel garante que nenhum médico vai ter falta.

No caderno reivindicativo, com 15 pontos, apresentado em Agosto, os médicos alegam ser “penalizados” com políticas que “desvalorizam e descaracterizam” a profissão. E que procuram a “dignificação” e a redinamização das carreiras. E reivindica, entre outras exigências, o ingresso imediato dos desempregados para o preenchimento de vagas nas instituições do Serviço Nacional de Saúde (SNS); substituição do regime remuneratório; efectivação imediata do pagamento dos subsídios; criação de condições de habitabilidade com energia eléctrica, alimentação, água, transporte e garantir e supervisionar de forma imediata transporte colectivo para os médicos que prestam serviços no SNS nos municípios e fora das capitais: melhorar o atendimento nas unidades sanitárias de nível primário com recursos humanos e materiais. Além disso, exigem mais condições nas unidades terciárias, com equipamentos “condignos” e bancos de urgência dos hospitais secundários e terciários com medicamentos e material necessário para atender doentes graves.

O SINMEA mostra-se disponível ao diálogo, tendo lamentado nunca ter sido convocado pelo Minsa. Nem mesmo após o envio do caderno reivindicativo. “Quero acreditar que o Minsa não vai arriscar uma nova paralisação”, afirma o presidente.

 

Médicos dizem “Basta!”

Nas redes sociais, o médico e candidato a bastonário da Ordem dos Médicos de Angola, Miguel Bettencourt, considera a greve um “facto inédito que deve ser devidamente analisado”. “A partir de amanhã, a classe médica nunca mais será olhada como antes. Os médicos finalmente disseram basta de assistir à agonia lenta dos pacientes, impotentes por não terem recurso. Disseram “chega de sofrer calado ante a desvalorização da classe”. Disseram “não mais queremos pactuar com a degradação contínua do sistema de saúde, cujos indicadores figuram sempre na cauda mundial”. Os médicos, como é apanágio da profissão, responsavelmente esperaram durante 43 anos por dias melhores”, lê-se na publicação no Facebook.

Num comunicado, o Bureau Político do MPLA manifestou-se preocupado face à greve, apelando ao respeito pela lei e encorajando o Governo a aprofundar o diálogo, em busca de consensos para que os caminhos da satisfação das reivindicações não signifiquem sacrifícios para as populações.