Depois de vários anos a fazer a ‘travessia no deserto’

Futebol feminino tenta renascer

O futebol feminino já esteve no auge na década de 90. Só em Luanda tinha mais de 30 equipas, mas devido às dificuldades foi ficando mais reduzido. Mesmo assim, há quem acredite que possa voltar aos velhos tempos. A propósito do Campeonato do Mundo, que de disputa em França, o NG foi espreitar como anda a modalidade.

Futebol feminino tenta renascer
Santos Sumuesseca
Selecção Femenina
Lurdes  Lutonda

Lurdes Lutonda treinadora-adjunta da selecção nacional

Está a sair do sono profundo, mas necessita de muito apoio na formação para que haja crescimento e qualidade.

Por onde para o futebol feminino em Angola? Quem se lembra dos fins-de-semana dos grandes trumunos nos campos pelados do Felício, no Prenda, na Terra Nova, Refrinor, Kikalanga e outras áreas de Luanda? Nomes como China, actual adjunta da selecção, Dickson, a menina de cabeça rapada que tinha bom domínio de bola, Fofaná, Guigui, Silas, Verónica Miguel ‘Veró’, Irene Gonçalves, a ‘Demolidora’ fazem parte da história do futebol feminino. Eram jovens com técnica bastante apurada, que punham em delírio os adeptos e amantes da modalidade.

Hoje a realidade mudou e as grandes partidas deixaram de existir. As atletas umas rumaram por outros caminhos, mas há algumas que ainda são persistentes e batalhadoras e continuam ligada ao futebol.

Só em Luanda, na década de 1990 existiam mais de 30 equipas com destaque para Oríon, Terra Nova, Boavista, Blocos, Expresso (Ex-Grupo Desportivo da Nocal), ‘Nelito Soares’, Estrelinhas da Petrangol, Kado Sport Clube, Beira Mar, Siderurgia, Regedoria, Progresso do Sambizanga, Mártires de Kifangondo, Mabo, Grupo Desportivo da Madeira e tantas outras. Devido ao grande número de equipas na capital, a competição era disputada com duas divisões. A primeira com 22 equipas e a segunda com 23.

Maninho Loyde, actual treinador de selecção feminina, acredita que a modalidade possa ainda vir a ter boas executantes, quando se apostar desde a tenra idade nas escolas e com professores de educação física com vontade de trabalhar respeitando os princípios de jogos e as técnicas de base. “Angola vai ter boas atletas e uma selecção forte e talvez participar numa fase do campeonato do mundo”, afirma. A selecção nacional não disputa o campeonato do Mundo que vai ter lugar no Brasil. Para o antigo jogador do 1.º de Agosto, há “treinadores espalhados nos bairros de Luanda que lutam para não deixar o escalão morrer”. Por isso, defende que o Governo apoie essas iniciativas. “Temos diamantes brutos para ser lapidados”, garante.

Rosália Dieiro ‘Russa’, antiga jogadora do Mártires e Kadó, já com a carreira terminada, entende que a modalidade está a “sair do anonimato”. A treinar as meninas do 1.º de Agosto, confessa que trabalhar com mulheres “não é fácil, quanto mais no futebol”. “A paciência é a chave de tudo de forma a transmitir os conhecimentos e a técnica”, é a receita da treinadora

Por sua vez, a antiga jogadora do Progresso do Sambizanga Lurdes Lutonda ‘China’ também partilha da opinião de Maninho Loide, mas sublinha o futebol feminino esteve “adormecido”, mas que hoje “está a sair do sono profundo, mas necessita de muito apoio na formação para que haja crescimento e qualidade”. De acordo com ‘China’, que possui o curso de treinadores de nível C da Confederação Africana da modalidade (CAF), realizado nos Camarões, o país pode voltar ao nível praticado nas décadas 1990 a 2000 “quando apostar seriamente na formação de atletas, treinadores, dirigentes e em iniciativas privadas”.

No Bengo, a formação do Paulo FC, além de competir na 2ª divisão, a direcção apostou igualmente no escalão feminino que tem dado muitas alegrias nas competições internas. Fruto dos investimentos, muitas atletas integram a selecção nacional que prepara a sua participação na Taça Cosafa a decorrer na África do Sul. 

 

BALIZA É GRANDE

Futebol feminino tenta renascer

Outra jogadora que fez furor nas balizas dos clubes é Dionísia Inácio ‘Denise’. Também afirma “não ser fácil treinar novas guarda-redes”, alegando que muitas delas acabam por desistir por considerar a baliza grande. Mas com os anos de experiência, aos poucos, as jogadoras vão ultrapassando o medo. A antiga guarda-redes que jogou em vários clubes de Luanda sublinha que o futebol feminino “não morreu”, mas falta a divulgação nos mídias.

 

Os ‘gloriosos’ anos 1990

O início da década de 1990 está registado como princípio da prática do futebol 11 feminino semiprofissional em Angola, pós-independência. O jogo histórico foi alusivo às comemorações do dia da Federação Angolana de Futebol (FAF), onde participaram as atletas praticantes do futebol salão e andebol. Nessa altura, o antigo membro da FAF, Diogo Fortunato, e o ex-praticante de futebol, Domingos da Silva, foram indicados como treinadores das formações do Misto A e Misto B de Luanda. Em 1992, um segundo jogo é realizado em Benguela nas comemorações da Independência Nacional.

O primeiro campeonato nacional experimental realizou-se no Lubango, Huíla, em 1999.

 

Selecção ‘aos soluços’

Em 1993, convoca-se pela primeira vez a selecção nacional feminina, com atletas vindas da prática das modalidades de futebol salão e andebol, para disputar as eliminatórias do Campeonato do Mundo de Futebol Feminino em 1995. A selecção de Angola teve como treinador Chico Ventura e o adjunto Felipe Mascarenhas. Sem experiência, a selecção foi eliminada na 1ª eliminatória pela Africa do Sul, com uma derrota por 3-1. O jogo aconteceu a 7 de Janeiro de 1995, na África do Sul. Na segunda mão, o resultado foi um empate a três golos. A primeira selecção nacional feminina foi formada por Sónia (capitã de equipa), Jú, China, Dickison, Kapa, Silas, Bela, Sissi, Bety, Guigui, Fofaná, Arlete, Luísa e Angelina.

Na última participação, em Malanje, as ‘welwitchias’, designação da selecção nacional de futebol feminino, volta a disputar a Taça Cosafa, entre 31 de Julho a 11 Agosto, também na África do Sul. A selecção foi confiada à equipa técnica liderada pelo antigo internacional do 1.º de Agosto, Maninho Loidy, e tinha adjuntas Verónica Miguel ‘Veró’ e Lurdes Lutonda ‘China’. Foi a terceira presença de Angola no evento, depois de ter ocupado a segunda posição da prova de 2008, em Malanje, ao perder na final para África do Sul, por 1-3. Na estreia em 2006, na Zâmbia, o conjunto não passou da fase de grupo.

 

Olhos em França

Durante um mês, a França acolhe o Campeonato do Mundo, que já vai na 8ª edição. A competição começa este sábado e termina a 7 de Julho. Os jogos disputam-se em nove cidades, com a abertura e final marcadas para Lyon. Camarões, África do Sul e Nigéria são os países africanos que disputam a prova, entre 24 selecções. Os EUA são as actuais campeãs do mundo, um troféu conquistado em 2015