Historiadores e antropólogos querem mais divulgação da história nacional

Faltam monumentos de figuras nacionais

Especialistas defendem que o heroísmo das pessoas deve servir de incentivo, de maneira que não só devem ser expostos publicamente, como serem inseridas na educação e na cultura nacional. Sugerem que sejam erguidos monumentos históricos, em que estejam os três líderes dos movimentos de libertação: Agostinho Neto, Jonas Savimbi e Holden Roberto.

Faltam monumentos de figuras nacionais
Santos Samuesseca
Estátuas das Heroínas localizadas na avenida Ho chi Minh
Alberto Oliveira Pinto

Alberto Oliveira Pintohistoriador e escritor

A história é a organização da memória colectiva e está sempre dependente dos interesses circunstanciais dos homens.

Expostas maioritariamente no Museu Nacional de História Militar, em Luanda, em avenidas e largos das cidades, as estátuas dos heróis, heroínas e guerrilheiros nacionais fazem parte da história política, militar e cultural de Angola. Agostinho Neto, Jonas Savimbi, Holden Roberto, Njinga Mbande, Lucrécia Paim, Deolinda Rodrigues, Irene Cohen, Teresa Afonso e Engrácia dos Santos, entre outros, são as figuras mais proeminentes.

Os especialistas defendem que há “muito ainda por se fazer”, na preservação das personagens históricas e culturais de Angola. E acrescentam que, com a construção de monumentos, se deve dar melhor explicações sobre quem realmente foram tais personagens e que contributos deram a Angola.

O historiador e escritor Alberto Oliveira Pinto critica a ausência de informação, sublinhando que, “em nenhum lugar”, se diz por que motivo foram concebidos os bustos e em que lugares de Luanda estiveram em tempos exposto e porquê.

“Em nenhum lugar se estabelece a distinção entre as que efectivamente fazem parte da história de Angola – como Paulo Dias de Novais, Salvador Correia de Sá ou Pedro Alexandrino – e as que foram usadas com o mero fim de propaganda colonial e imperialista, como Luís de Camões ou Vasco da Gama, que nada têm que ver com Angola”.

Por sua vez, o antropólogo Patrício Batsîkama lamenta que “não se esteja a dar o devido respeito e a contar a história como devia ser”. Entende mesmo que se trata de “desprezo”, por exemplo, a Jonas Savimbi e Holden Roberto, quando no manual escolar aparece que o líder da UNITA tenha morrido em 2004 e não em 2002, a data verdadeira. “No sistema de ensino, aparecem essas duas figuras, mas de maneira desprezada”.

Para Alberto Oliveira Pinto, “há sempre” lacunas na história, justificando que, de contrário, “não faria qualquer sentido o trabalho dos historiadores”. O historiador argumenta que “a história é a organização da memória colectiva e está sempre dependente dos interesses circunstanciais dos homens”.

Já Patrício Batsîkama entende “não ser normal” que haja lacunas na história, defendendendo que, quando se educa crianças, se deve “levar a coisa a sério”, porque “não podemos incentivar as crianças ao sentimento de ódio por uns e amor por outros. A verdade é uma virtude e o reconhecimento do erro também é uma virtude. Não interessa se é politicamente correcto ou não. É necessário contar bem a história de Angola.”

Faltam monumentos de figuras nacionais

Neto “mal lembrado”

Patrício Batsîkama lamenta que só se lembre de Agostinho Neto em Setembro e reconhece que Neto “pensou Angola que nós vivemos hoje”. Acredita que “a visão estratégica que ele teve não é do conhecimento das crianças”, porque se “limita a falar do caminho do mato e ele é mais do que isso”.

O antropólogo apela os ministérios da Educação e Cultura a revisitarem a história de Neto. “É preciso repensar como aplicar a reconciliação a partir da figura de Agostinho Neto, Holden Roberto e Jonas Savimbi, e edificar um grande monumento que fale deles.”

Por isso, sugere a elaboração de documentos com “maior serenidade” e que sejam disponibilizados para o ensino médio. Recomenda também que os documentos sejam confiados às faculdades, principalmente a de Ciência Sociais da Universidade Agostinho Neto que é “um laboratório” e que pode escrever a história de Angola, embora reconheça “a falta de financiamento para as pesquisas”.

O antropólogo sugere que, tal como o MPLA, os outros partidos publiquem a sua história e depois o Estado deve criar uma comissão para encontrar convergências que sejam de facto históricas. “Conheço a história de Holden Roberto e do Savimbi, mas não vejo as suas histórias bem contadas. Ambos são heróis nacionais e deve haver inclusão.

O Estado sabe disso. Já estamos no processo de reconciliação, logo os paradigmas que traziam a Unita e a FNLA não vincaram. Agora, já se deve reescrever uma história inclusiva”, aconselha.

Estátuas com mais representatividade

Alberto Oliveira Pinto, vencedor do prémio Sagrada Esperança, 2016, defende que qualquer estátua exposta ao público nas ruas de uma cidade, busto ou não, é sempre um lugar de memória e tem sempre uma determinada simbologia que lhe é ideologicamente atribuída. E que, para tal, o importante ao erguer-se uma estátua a quem quer que seja é saber quem efectivamente foi essa pessoa e o que é que ela representa. E por que motivo ela figura em determinado lugar da cidade. “Não é despiciendo o lugar, do meu ponto de vista”.

O historiador recorre ao exemplo do busto de Hoji ya Henda que, desde a independência, está habituado a vê-lo, na Cidade Alta. E interroga-se: “O que simboliza Hoji ya Henda? O que simboliza a Cidade Alta? Como se articulam um com o outro? Será que um eclipsa o outro? Em que medida e porquê?”.

Alberto Oliveira Pinto defende que nomes como Viriato da Cruz, Mário Pinto de Andrade, José de Fontes Pereira, no século XIX, por exemplo, são fundamentais para o nacionalismo angolano e deviam constar da história nacional

No aspecto cultural, Batsîkama entende que as figuras históricas precisam de ser enquadradas na cultura, por uma razão “muito simples”. Por um lado, porque a cultura, enquanto espaço de identidade, deve basear-se na história. Por outro, justifica que obedece uma linha política do Governo, ou do conselho nacional sobre a valorização da cultura.

“A cultura é a transformação da natureza” e exemplifica com as heroínas que “romperam com a condição de mulher de submissão”, e que se “levantaram e fizeram proezas que os homens não conseguiram fazer”.

Para ele, a estátua de Agostinho Neto “está bem” representada na Praça Primeiro de Maio, porque foi ali que o primeiro Presidente proclamou a independência nacional. E que, actualmente, Njinga Mbande “está bem representada” no Museu de História Militar, por ter sido guerreira, contrariamente quando ocupava o Largo do Kinaxixi, onde esteve durante décadas.

Estátuas no Museu

No Museu Nacional de História Militar, figuram estátuas dos guerreiros que travaram batalhas militares, na época colonial, a exemplo de Njinga Mbande, considerada uma grande guerreira, que combateu portugueses e holandeses, mas acabando por se vergar ao império luso. É o ‘cartão postal’ do museu.

A estátua esteve durante décadas no Largo do Kinaxixi. Há também bustos e estátuas de antigos colonos que enfeitavam diversas praças de Luanda no tempo colonial.

No entanto, Celestino Cassongo, chefe de departamento de cultura do museu, entende que devia haver uma estátua de Mandume Ya Ndemufayo, que foi o último rei dos cuanhamas, um povo pertencente aos ovambos do sul de Angola e norte da Namíbia.

Perfil

António Agostinho Neto em 1975 tornou-se no primeiro Presidente de Angola até 1979, ano em que morre, a 10 de Setembro, em Moscovo, Rússia.Nasceu em Icolo e Bengo, a 17 de Setembro de 1922. Foi médico, escritor e político e também presidente do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). Em 1975-1976, foi-lhe atribuído o Prémio Lenine da Paz. A data do seu nascimento é celebrada, como Dia do Herói na Nacional e é feriado nacional. Deixou um legado literário “incontornável”, por muito discutida que seja a sua obra, defende Alberto Oliveira Pinto.

Perfil

Nzinga Mbande Cakombe viveu entre 1583 e 1663, um  período em que se destacou o intenso tráfico de escravos africanos, no reino do Ndongo e de Matamba, no sudoeste de África, no século XVII. Também conhecida como dona Ana de Sousa - nome dado após a sua conversão ao cristianismo. Era filha de Ngola Kiluanje e de Guenguela Cakombe e irmã de Ngola Mbandi.

Faltam monumentos de figuras nacionais

Njinga Mbande ganhou notoriedade durante a guerra por liderar tropas e por tê-las proibido de a tratarem como ‘rainha’, preferindo que se dirigissem a ela como ‘rei’. Em 1635, formou uma coligação com os reinos do Kongo, Kassanje, Dembos e Kissama.