E tudo o ciúme levou!

Estavam ainda a desfrutar da lua-de-mel quando o marido, envolvendo-a nos braços, lhe fez uma declaração que nunca mais lhe saiu da cachimónia: “Quando um dia a razão te apresentar o divórcio como solução”, disse o esposo, “procura no amor o fundamento para continuares comigo”. 

Desde então, Catarina, uma publicitária de reconhecido mérito, encontrou sempre uma desculpa para minimizar as advertências dos familiares e amigos sobre o comportamento de Afonso. “Um pouco de ciúme faz bem à relação”, dizia Catarina, defendendo o marido, mesmo nos casos em que este a submetia a inquéritos absurdos, querendo saber, por exemplo, quem era aquele fulano que punha sempre gosto nas fotos facebooqueanas da esposa, por que razão o vizinho da rua de trás a saudava de forma sorridente ou ainda porque é que a mulher colocava código de bloqueio de ecrã no telemóvel. 

Para justificar estes interrogatórios, que chegavam a tornar-se violentos, com Catarina sendo, muitas vezes, esbofeteada, Afonso recorria aos seus notáveis conhecimentos bíblicos. Citando o livro de Efésios, o marido dizia, não propriamente nestas palavras, que as sagradas escrituras ordenavam as esposas a obedecerem aos esposos tal como obedecem a Deus, pois, alegadamente, os maridos têm autoridade sobre as mulheres, assim como Cristo tem autoridade sobre a igreja. 

Quando nasceu o primeiro filho do casal, as coisas melhoraram um pouco, sobretudo porque Catarina, gozando da licença de maternidade, passava os dias em casa, para o alívio do marido, que dizia avontademente para os kambas: “Se a gaja voltar a envaidecer-se, vou-lhe espetar mais um puto!”

Os anos passaram e Afonso desenvolveu uma esquizofrenia que o levava a ter ciúmes inclusive do próprio filho! 

Então, certa noite, ao regressar ao kubico, Catarina entregou ao marido as papeladas do divórcio e este reagiu de forma surpreendente: “É melhor mesmo, também já me cansei das tuas traições!”

Contudo, na manhã seguinte, o advogado de Catarina não se preocupou em acelerar o processo de divórcio, pois tinha de dar prioridade ao caso de um tal de Afonso que havia despejado água fervente no rosto da própria esposa, deixando-a impiedosamente desfigurada, com perigosas queimaduras que roçavam a hipoderme.