Responsáveis admitem problemas e acusam Ministério da Saúde

Doentes renais sem medicamentos

Os centros de hemodiálise de Luanda estão sem medicamentos. São os próprios responsáveis que admitem o problema e acusam o Ministério da Saúde de não estar a cumprir com os contratos. Entre os pacientes, encontram-se várias crianças que, devido à falta de um serviço especializado, são obrigados a fazer os tratamentos com os adultos. Há a fazer hemodiálise 1.621 pessoas.

Doentes  renais sem medicamentos
Santos Sumuesseca
Mário Rosa

Mário Rosacoordenador da equipa médica do centro de hemodiálise do Américo BoaVida

O centro está há três meses sem medicamentos. Outrora tínhamos um apoio financeiro permanente que possibilitava adquirir os medicamentos.

Sem medicamentos e com doentes que aumentam todos os dias, os centros de hemodiálise dos hospitais ‘Américo Boavida’, ‘Josina Machel’ e Prenda têm registado grandes dificuldades em cumprir com o seu funcionamento normal. No Centro de Hemodiálise Pluribus África, uma parceria público-privada entre o ‘Américo Boavida’ e a Pluribus África, o coordenador da equipa médica, Mário Rosa, admite a “carência gritante” de medicamentos e afirma que a situação tem afectado a evolução e a qualidade de vida dos doentes. “O centro está há três meses sem medicamentos”, revela. “Outrora tínhamos um apoio financeiro permanente que possibilitava adquirir os medicamentos. Conseguíamos evitar que muitos destes pacientes sentissem as complicações e comodidades dessa patologia”, explica. Com a crise, foram perdendo gradualmente a capacidade de suprir as necessidades dos pacientes. “Temos uma gritante falta da eritropoietina (medicamento utilizado principalmente para o tratamento de anemia aliada a doenças como a insuficiência renal) que é a base da estabilidade dos pacientes”, admite.

A situação tem agravado a saúde dos doentes, levando muitas vezes a mortes. A cada trimestre, são registadas pelo menos cinco mortes. Mário Rosa assegura que o Ministério da Saúde (Minsa) está informado sobre a precariedade do centro vive. “Todos os meses mandamos relatórios a informar das necessidades e continuamos a espera que o Ministério faça a sua parte e que seja mais do que aquilo que tem feito”, afirma, acusando o Minsa de “falta de seriedade” no contrato de subvenção.

 

Ameaçado

Inaugurado em 2013 e com um investimento de cerca de 12 milhões de dólares, no ano passado, o centro esteve em risco de fechar, devido às elevadas dívidas a fornecedores e a funcionários e à falta de materiais gastáveis. O responsável admite que a situação não está ainda ultrapassada, mas que não se cogita a possibilidade do encerramento. “O centro continua a debater-se com inúmeros problemas financeiros”. “A gestão é privada, mas subvencionada. É nesta parte que gostaríamos que houvesse mais seriedade da parte do Minsa que não tem cumprido a 100 por cento com o negócio, por isso é que temos essas carências”. O centro tem quatro salas de hemodiálise e dispõe de 52 máquinas que recebem 100 doentes por dia, divididos em três sessões. Tem mais de 320 doentes, entre os 17 e 50 anos, mas a maioria são jovens.

 

Crianças, o maior problema

Outros centros que enfrentam as mesmas ‘makas’ são os dos hospitais do ‘Josina Machel’ e do Prenda. Os dois estão interligados e acolhem um total de 420 doentes, sendo 329 deles no ‘Josina Machel’. No Prenda, estão instaladas 19 máquinas, ao passo que, no ‘Josina Machel’, 42. Rubem Buco, assessor clínico dos dois centros, reconhece que a deficiência de apoio na medicação aos doentes deve-se à elevada procura, que faz com que alguns doentes fiquem em lista de espera. “Temos pacientes com critério para a diálise, mas que permanecem no internamento por falta de vagas. São cerca de 27”. O centro dispõe de apenas cinco nefrologistas.

Mário Rosa revela que o tratamento da hemodiálise é “caro” e que cada doente chega a gastar mais de quatro mil dólares. No passado, segundo o Minsa, eram gastos 400 dólares por cada sessão de um doente renal, sendo que, cada doente tem direito a três sessões por semana.

Segundo a Sociedade Angolana de Nefrologia, estão cadastrados nos serviços de hemodiálise 1.621 pessoas. 1.524 são de Luanda. Apenas quatro províncias dispõem de serviços de nefrologia: Luanda, com seis, Benguela, com dois, e Huambo e Malanje com um cada. E há apenas 40 nefrologistas. O Ministério da Saúde anunciou, para Junho, a abertura de um centro de hemodiálise do Hospital Central do Lubango, na Huíla. E até 2021, o serviço poderá estar disponível em Cabinda.

 

Nefrologia infantil

A doença caracterizada pela falência dos rins ataca também a crianças. No ‘Josina Machel’, por exemplo, estão hospitalizadas 11. A falta de um serviço especializado de nefrologia infantil tem obrigado as crianças a juntarem-se aos adultos. Segundo Rubem Buco, a nefrologia infantil tem sido a maior dificuldade. Por isso, defende ser urgente que o Minsa instale máquinas no ‘David Bernardino’, o único hospital pediátrico do país, sobretudo na secção de unidade de tratamentos intensivos (UTI). “A nefrologia infantil tem de se fazer sentir com a máxima urgência”, apela o médico que cita a malária, a principal causa de morte em crianças no país, como um dos factores primários para a insuficiência renal aguda em crianças e que em muitos casos evolui para a cronicidade.

Rubem Buco defende ainda a necessidade de a pediatria ter máquinas de diálise, porque existem pacientes intransportáveis, com critério de intubação que muitas vezes saem assistidos nesta unidade para o ‘Josina Machel’ em estado crítico.

 

10 por cento atingida

A insuficiência renal caracteriza-se pela incapacidade dos rins em filtrar resíduos, sais e líquidos do sangue. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a doença atinge cerca de 10 por cento da população. Em Angola, estima-se que haja mais de seis mil pessoas afectadas. Não há dados concretas porque não existe um programa direccionado à doença. No mundo, a incidência da doença em crianças e adolescentes é de 15 pacientes por um milhão de habitantes entre 0 e 19 anos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

 

Proposta na gaveta

Submetida à Assembleia Nacional, a Lei sobre Transplantes de Tecidos e Órgãos Humanos está engavetada há quase 15 anos. É vista como uma das melhores opções para acalentar o sofrimento de quem padece com insuficiência renal. O país prepara-se para efectivar o transplante de tecidos, células e órgãos humanos. A proposta de lei está a ser analisada desde Março.

Mário Rosa considera que o se o país tiver vontade é possível realizar-se transplantes, mas que “não a curto prazo”. Mas alerta que, antes de se partir para o transplante, é necessário preocupar-se em melhorar a qualidade dos serviços de hemodiálise. “A partir do momento que temos uma hemodiálise de qualidade vamos poder de forma correcta mandar pacientes para o programa de transplantes sem risco de rejeição”, acredita.