Emprego depois da formação no centro do debate

Angola termina o ano com 10 mil novos licenciados

Ao todo, juntando as universidades públicas e privadas, o país deverá terminar o ano com, pelo menos, 10 mil novos licenciados. Os números colocam o director de um site de emprego e o líder dos desempregados de Angola em ‘rota de colisão’. Entre os gestores de universidades, há quem peça mais verbas para melhor acompanhar os técnicos que forma, enquanto outros identificam desafios diferentes.

Angola termina o ano com 10 mil novos licenciados
Domingos Margarida

Domingos Margaridavice-reitor da UAN

Temos muita vontade e até precisamos destes estudantes, mas não temos como retê-los aqui por falta de verbas.

Todos os anos, quase sempre em Agosto, a história se repete: outorgas, outorgas e mais outorgas. “Isso é mau, muito mau mesmo”, considera Vicente Paulo, secretário-geral da Associação dos Desempregados de Angola (ADA), criticando o facto de a “grande maioria” destes diplomados não ter trabalho. “Um licenciado, depois de gastar muito dinheiro com as propinas, ainda tem de ficar anos a sofrer no desemprego ou a trabalhar numa área que nada tem que ver com a formação é algo de louvar?”, questiona o líder da ADA, apelando a que as universidades criem cursos em função das condições que o pais apresenta.

A liderar uma organização fundada em 1993 e que, actualmente, conta com mais de 36 mil membros, 17 dos quais licenciados, Vicente Paulo, de 61 anos, não percebe, por exemplo, porque é que se formam químicos ou bioquímicos, “quando o país não tem fábricas”. Formado em Psicologia, o secretário-geral da ADA sublinha que não pretende que as universidades sejam encerradas, embora as critique, sobretudo as privadas, por alegadamente “insistirem em abrir cursos que o país não absorve”.

Já Luís Verdeja, director-geral da Jobartis, o maior portal angolano de emprego, não tem dúvidas de que o país “pode e deve produzir mais licenciados”. Residente em Angola há cerca de 10 anos, o espanhol entende que, embora os formandos não consigam emprego tão logo recebam o ‘canudo’, “investir na formação [superior] é investir no futuro”. Para melhor ‘absorção’ dos licenciados, Verdeja sugere que o Estado crie “um ambiente de negócios onde o sector privado possa maximizar o potencial”. O director da Jobartis também dá conselhos a quem se quer matricular num curso superior, sugerindo as áreas ligadas à internet, além dos sectores técnicos, como as engenharias, sem deixar de fora os cursos ligados à gestão.

Existe, entretanto, um ponto em que as opiniões do director da Jobartis e do secretário-geral da ADA convergem, pois ambos consideram “importante” a formação técnico-profissional, cuja frequência não depende necessariamente da ida à universidade. Luís Verdeja, por exemplo, admite haver profissões em que “a melhor formação é obtida através da formação técnico-profissional”, embora compreenda a predisposição das empresas na preferência por quem andou na universidade, partindo do princípio de que “quanto mais formação, melhor”.

Não sendo propriamente uma criadora de postos de trabalho, a Jobartis difunde os empregos disponibilizados pelas empresas que publicam vagas no portal. Por ano, a plataforma publica aproximadamente 20.000 vagas de emprego. Para se cadastrarem na Jobartis, os candidatos não pagam nada. Basta aceder ao www.jobartis.com, fazer o cadastramento e anexar o currículo. Já as empresas, para anunciarem uma vaga de emprego com validade de um mínimo de 30 dias, desembolsam valores a rondar os 20 e 30 mil kwanzas. 

 

Sem soluções

A Universidade Agostinho Neto (UAN), a maior e mais antiga do país, outorga este ano mais de 2.500 diplomas, entre mestres e licenciados (ver caixa), apesar de não saber o que será destes técnicos assim que deixarem a instituição. Domingos Margarida, o vice-reitor para a área académica e vida estudantil, assegura que a maioria dos que se formam em Medicina na UAN “já trabalham”. Sobre os engenheiros, Margarida refere que “alguns têm já um sítio onde frequentam estágios”. Para outros cursos, admite o responsável, a solução tem sido “aguentar-se”, com acertos em empresas ou participação em concursos públicos em órgãos do Estado. “O ideal seria que tivéssemos vagas já disponíveis para encaminhar os estudantes”, reconhece Domingos Margarida, explicando que o problema “não é da UAN”, pois, até mesmo para colocar os melhores estudantes a trabalhar como docentes, a instituição não consegue. “Temos muita vontade e até precisamos destes estudantes, mas não temos como retê-los aqui por falta de verbas”. 

Já Lufianlisso António, vice-reitor para a área académica e vida estudantil da Universidade Jean Piaget de Angola (UniPiaget), entende que o desafio das instituições de ensino superior é melhorar a qualidade de ensino, para que os técnicos saiam não apenas com canudo. Sobre a ‘ponte’ entre a academia e o emprego, Lufianlisso António entende que “esta não é propriamente competência da universidade”. O vice-reitor insiste na melhoria das ofertas de cursos como forma de surgimento de uma “concorrência de qualidade”.

 

Os números de 2018

A Universidade Katyavala Bwila (UKB) já havia realizado uma cerimónia de outorga de diplomas em Abril, com 856 licenciados. No sábado, 25, vai realizar outra cerimónia, com outros 368 licenciados, o que perfaz um total de 1.224 só em 2018. Já na Universidade Lueji A’Nkonde, o número de licenciados está fixado em 690.

Na Universidade Cuito Cuanavale (UCC), são 390 os licenciados para 2018, enquanto o Agostinho Neto (UAN), além dos 128 mestres, conta ainda com 2.412 novos licenciados. Em Luanda, no Instituto Superior de Ciências das Educação (ISCED), serão outorgados, hoje, 391 diplomas, sendo 16 para mestres e 375 para licenciados.Na semana passada, a Universidade Técnica de Angola (UTANGA) entregou diplomas a 1.146 licenciados, a Privada (UPRA) a 336 licenciados e quatro mestres, enquanto a Metodista (UMA) a 486 licenciados. A UniPiaget, depois dos 309 de Abril, voltou a ‘diplomar’ outros 405, o que resulta num total 714 licenciados este ano. Esta semana, logo na segunda-feira, foi a vez do Instituto Superior Politécnico Metropolitano de Angola (IMETRO): 379 novos técnicos superiores. Também para esta semana, estava agendada a cerimónia de outorga de diploma das universidades Óscar Riba (UOR), 585 licenciados, e Católica (UCAN). Esta última, além dos 640 licenciados, também tem novos cinco mestres. No total, só pelos números das IES aqui mencionadas, Angola conta com novos 9.393 licenciados e 153 mestres.