Agora pergunto eu...

Nos últimos tempos, autoridades e instituições públicas têm se desdobrado em comunicados para desmentir ‘notícias’ falsas postas a circular online.

No caso da polícia, a frequência têm sido perturbadora, sendo que o próprio comandante-geral Paulo de Almeida se viu obrigado a desmentir ‘notícias’ de que se iria demitir devido a um problema de saúde. O Ministério do Interior elaborou um comunicado a alertar contra informações que têm como objectivo “manipular a opinião pública e desacreditar as instituições do Estado e os seus responsáveis” e não faltam instituições públicas preocupadas em desdizer boatos sobre as instituições e sobretudo sobre os seus líderes.

Populam, e são partilhados à velocidade de um ‘click’, textos que sobretudo desfazem reputações e quanto mais conhecida a figura mais partilhas tem o texto que de si fala mal, quanto pior, melhor, sem que ninguém (ou muito poucos) se preocupe com a veracidade do que partilha. É o novo entretenimento estilo ‘Big Brother’, versão famosos vilipendiados.

Classificar esta subespécie de boatos como ‘noticias’ (sempre com aspas) é doloroso para um jornalista, obrigado a estudar e a respeitar um código de ética e deontologia profissionais, no entanto, o tempo que consomem e a atenção que comandam a cada vez mais pessoas e a instituições que se vêem obrigadas a empreender tempo e dinheiro para elaborar desmentidos uns atrás dos outros são sintomáticos de que o seu impacto se tornou quase tão poderoso quanto o dos meios formais. Isto acontece porque são conteúdos elaborados de modo a mexer com as emoções populares, particularmente com os ódios, e de os acirrar. É fácil cultivar ódios entre bakongos contra sulanos, pretos contra mulatos, angolanos contra estrangeiros, pobres contra ricos, as narrativas de exultação à polarização são facilmente elaboradas e facilmente reúnem apoio. São de tal modo poderosos e emocionais que mesmo jornalistas, habituados às obrigações básicas da verificação dos factos, partilham alegremente boatos destes, que no fundo são atestados de dispensa de profissão. Se qualquer um que se esconde por detrás de um perfil de Facebook pode produzir ‘notícias’, de que servem afinal os jornalistas e a sua observância de regras?

E agora pergunto eu, e deve perguntar o querido leitor sempre que lê este tipo de conteúdo de fontes não credenciadas: qual é o objectivo destas falsas notícias e porque é que há quem se dê ao trabalho de as elaborar?

As eleições brasileiras e o novo contexto dominado pela influência das redes sociais sobre a opinião pública tornaram-se num caso de estudo paradigmático do poder das últimas e de como pode ser pernicioso. O Financial Times, numa daquelas reportagens ricas em perspectivas que informam em vez de dizer ao leitor o que pensar, descreveu como as redes sociais no Brasil se tornaram num campo de batalha político. “O fundador do grupo de apoio ao candidato presidencial Jair Bolsonaro aplaude uma boa briga nas redes sociais” que explica serem “os maiores impulsionadores de visibilidade online”. O tal cultivar de ódios como entretenimento. “Fiz um vídeo a praguejar contra o pessoal do Jornal Nacional (que antigamente se dizia ter o poder de influenciar eleições) que atingiu meio milhão de visualizações”. Estes grupos, escreve o jornal britânico, revelam-se extremamente eficientes a ganhar proeminência nas redes sociais. Nas menções a candidatos, mais de 35 por cento são dominadas por Bolsonaro com mais 10 pontos percentuais do que o seu opositor, num país que se tornou o terceiro maior mercado do Facebook e em que, de 210 milhões de pessoas, 120 milhões são usuárias do WhatsApp.

Com este poder disponível para quem tenha capacidade de o manipular (inclusive com recurso a contas-fantasma e a robôs que multiplicam automaticamente o número de visualizações), vem a motivação da produção de notícias falsas, como tantas que vemos também por aqui.

Na semana passada, o Tribunal Superior Eleitoral brasileiro ordenou ao Facebook que retirasse do ar 33 ‘links’ que continham ‘notícias’ ou conteúdos falsos sobre a candidata a vice-presidente da campanha do PT, que, com perto de 150 mil partilhas, haviam registado mais de cinco milhões de visualizações, e que identificasse os responsáveis. As ‘notícias’ e vídeos manipulados chegavam mesmo a colocar a candidata a entregar material pornográfico a crianças e baixezas afins, com o nítido objectivo de influenciar as eleições.

Enquanto os conteúdos online não obedecem a regras (nem tão pouco de decência), a melhor defesa contra a manipulação, querido leitor, é perguntar-se se o conteúdo que lê foi publicado por um meio de confiança, se observa regras básicas como o contraditório, se o objectivo é informar ou apenas difamar, se é de interesse público ou se visa apenas atacar a privacidade a que temos todos direito. Se as respostas a estas questões forem “não sei”, o melhor é não confiar na veracidade e não ajudar a espalhar a bem da higiene social que ainda nos resta.