A morder fundo

João Lourenço fez bem evocar a existência de marimbondos na política angolana. Poderia tê-los nomeado, em vez de enviar indirectas, e ficaríamos todos esclarecidos. Talvez se referisse aos muitos 'cristãos-novos' que têm surgido. Ou seja, os que, por puro oportunismo, se transformaram em 'lourencistas'. São os que hoje cospem na sopa que andaram a comer durante 38 anos.

É para esses que o Presidente da República deve olhar quando pensa nos marimbondos e nos seus ninhos. São esses que hoje chupam o poder, sugando-lhe o néctar. Mas já o fizeram antes, sugaram e hoje esforçam-se para se distanciar, chegando mesmo a vilipendiar quem os alimentou. Ontem foi com José Eduardo dos Santos, amanhã poderá ser com João Lourenço.

Esta classe de parasitas - marimbondo é definido, na ciência, como 'vespa parasitoide' - é perigosa. Recorrendo à sabedoria popular, o escritor Ernesto Lara Filho escreveu que "marimbondo foi branco quem inventou". É uma metáfora poética que mostrava o mal que o bicho fazia.

Há dirigentes, deputados e militantes destacados do MPLA que viveram quatro décadas à sombra do poder de José Eduardo dos Santos. Bajulavam-no, idolatravam-no, ajudaram-no a que ele se mantivesse numa redoma de vidro, deram-lhe a imagem de um país que não existia e sobretudo sugaram-lhe o néctar.

Hoje, atiram-no para a lama publicamente, sem apelo, nem agravo e sobretudo sem vergonha. Não demorou muito a picarem. E já começaram a usar o mesmo discurso, a mesma bajulice, o mesmo curvar de espinha perante João Lourenço. Logo que o sintam mais fraco, não hesitam em accionar o ferrão para a picadela.

É claro que a metáfora de João Lourenço deveria ter outro destinatário e quase toda a gente percebeu a quem se dirigia. E como político avisado vale por dois, é bom que ele recorra, de vez em quando, à poesia, que é boa conselheira. Por exemplo, a esta do brasileiro Vinicius de Moraes: "Marimbondo furibundo/Vai mordendo meio mundo/Cuidado com o marimbondo/Que esse bicho morde fundo!". É uma definição que serve tanto para os cristãos-novos, como para quem João Lourenço, de facto, se queria referir.