Greves e salários de atletas e funcionários em atraso

Os duros dias do Progresso do Sambizanga

Mais de 20 funcionários do Progresso Associação do Sambizanga estão em greve e reclamam à direcção de Paixão Júnior, presidente do clube, o pagamento de 18 meses de salários em atraso. A equipa principal de futebol também não recebe há cinco meses, limitando-se aos prémios de jogo.

Os duros dias do Progresso do Sambizanga
Santos Sumuesseca
Treino dos Jogadores
Custódio Azevedo

Custódio AzevedoCoordenador de Xadrez

Enquanto os funcionários lutam pelos 18 meses de salário, a situação dos atletas e da equipe principal de futebol é outra.

A direcção do Progresso do Sambizanga tem uma dívida de 23 meses em salários em atraso, entre jogadores e funcionários administrativos. Aliás, os jogadores e a equipa técnica não recebem há cinco meses. Com os portões fechados, as letras maiúsculas ‘Estamos em greve’ e ‘18 meses de salário” são os principais cartões de visita para quem passa pelos arredores da sede, junto ao antigo mercado do Roque Santeiro, em Luanda.

Com a falta de dinheiro, a frustração apoderou-se dos funcionários. Alguns facilmente entram em prantos, como é o caso de Fernanda Cassinda, empregada doméstica, que faz papel de mãe e pai. A casa onde reside com os filhos é arrendada e o proprietário exige os pagamentos em atraso.

Sem alternativas, Fernanda Cassinda, no dia da greve, saiu de casa e não deixou nada aos filhos, por não ter cem kwanzas para a compra de pão. No colégio, os filhos não conseguiram fazer as últimas provas, por não terem pago as propinas de Novembro. “Está muito difícil”, lamenta.

Os duros dias do Progresso do Sambizanga

Fernanda Cassinda não recebe a ajuda de ninguém e a única fonte de sustento é salário do clube. Apela à solidariedade da actual direcção.

“Mendigos, míseros, pedintes e paupérrimos” são adjectivos que Carlos Hossi encontra para descrever funcionários do clube mais popular do Sambizanga. Segundo o porta-voz da comissão sindical dos trabalhadores, nos dias de hoje, para conseguir uma refeição para a família tem de recorrer a amigos e vizinhos. “Como ficam os filhos e a esposa que dependem do marido?”, interroga-se, sublinhando que existem famílias divididas por causa da falta de dinheiro.

Carlos Hossi entende ser urgente a direcção do clube resolver esta situação para que não aconteça o pior.  A primeira negociação com a direcção foi em Setembro, com a realização de seis encontros em que os dirigentes se comprometeram a pagar os salários a 30 de Novembro, o que não veio a acontecer.

“Péssimo” é assim que descreve Custódio Azevedo o actual ambiente familiar. O coordenador de Xadrez lembra que “18 meses não são 18 dias, é muito tempo a aguentar isto”. Funcionário há 28 anos, também teve os filhos fora das provas, por causa da falta de pagamento de propinas.

ATLETAS HÁ CINCO MESES

Enquanto os funcionários lutam pelos 18 meses de salários, a situação dos atletas e da equipa principal de futebol é outra. Não recebem há cinco meses. Para colmatar, os futebolistas auferem prémios de jogo e, quando não são pagos, ameaçam não jogar, com o clube a correr riscos de ter faltas de comparência.

Manuel Sambo, vice-presidente dos ‘sambilas’, em declarações ao NG, reconhece que os funcionários têm “legitimidade” para reclamar, mas aponta o dedo aos patrocinadores. O dirigente alega que a situação do clube não difere das dificuldades que o país enfrenta.

Manuel Sambo afirma que a greve apanhou a direcção de “surpresa”, argumentando que a greve não foi comunicada com antecedência e a única saúde é dialogar com a comissão sindical. Sublinha que estão a encetar contactos com os patrocinadores para minimizar a situação, amortizando, aos poucos, a dívida dos funcionários.

O dirigente entende “não ser ético” avançar de quanto necessitam para pagar aos funcionários e evita dar uma data para a solução deste problema, uma vez que o clube aguarda pelas respostas dos patrocinadores. Admite que “não se respira bom ambiente de trabalho” e que nem sequer consegue deslocar-se à sede devido ao número de grevistas que aguardam pelos dirigentes.

 

Clubes em crise

Quem também vive uma situação delicada é o Saurimo FC, da Lunda-Sul. O clube precisa de dinheiro para aguentar a temporada. Recentemente, o treinador principal, Kito Ribeiro, lançou algumas indirectas à actual direcção, alegando que “não se pode pôr a panela no fogão sem saber o que dar de comer”. Mas Eugénio Muacassange, presidente do Saurimo FC, ao NG, minimiza as críticas do treinador, acusando-o de ser “precipitado”. O dirigente tranquiliza os adeptos garantindo que “não vai desistir do presente Girabola e vai lutar para estar na primeira divisão”.  Em Agosto, os atletas do Sporting de Cabinda tinham decretado greve e recusaram jogar até que a direcção do clube liquide o pagamento dos salários e prémios de jogo em atraso referentes aos meses de Janeiro a Julho.