Quase um ano após a ‘limpeza’ da polícia

Venda de dólares reactivada no Mártires

Quase um ano após a intervenção da polícia para acabar com o negócio da venda de divisas, o negócio está de volta ao Mártires do Kifangondo, em Luanda. Embora camuflados, o negócio é feito à vista da polícia. Desde Agosto, o Banco Nacional de Angola (BNA) voltou ao método de venda directa de divisas aos bancos.

Venda de dólares reactivada no Mártires

Psiu, psiu…queres trocar? Tenho dólares, euros e rands sul-africanos e namibianos. É só falares o que precisas.” É quase sempre assim que começa a abordagem dos ‘negociantes de divisas’ do Mártires, em Luanda, quando avistam um potencial cliente.

Meses após a ‘limpeza’ a ‘pente fino’, resultante de uma mega-operação conjunta da polícia, nas ruas 15 e 20 do Mártires do Kifangondo, em Luanda, o negócio volta a dar nas vistas embora de uma maneira tímida. O bairro da capital é também apelidado de ‘Wall Street de Angola’, devido às semelhanças com uma rua norte-americana, que é considerada o coração histórico do actual distrito financeiro de Nova Iorque, onde se localiza a bolsa de valores mais importante do mundo.

Camuflados entre a multidão que  ali frequenta, homens e mulheres ‘kínguilas trabalham disfarçados de cabeleireiros, de moto-táxis ou até mesmo de simples vendedores de cartões de recarga. Ao contrário dos tempos antigos, não exibem maços de dinheiro. Mas estão atentos a qualquer movimento. O ambiente é calmo até avistarem um potencial cliente, logo começa a abordagem. A maioria parece ser oriunda da República Democrática do Congo (RDC). “Queres comprar? Vamos, mas lá para frente. Aqui a polícia está a incomodar”, esclarece o vendedor que se identifica apenas por ‘Henriques’, que conta que tudo tem sido feito o mais escondido possível devido à presença da polícia. Uma afirmação que parece contradizer tendo em conta que o negócio é feito a poucos metros de uma esquadra e no ‘nariz’ de agentes de trânsito da zona. “100 rands sul-africanos são quatro mil kwanzas, da Namíbia, 3.800 kwanzas,  o euro são 47 mil kwanzas  e o dólar 39.500 kwanzas até Dezembro ”, dita os preços do negócio o vendedor que para o caso do dólar, se nega a baixar o valor, alegando que a moeda “está difícil” de ser encontrada.

O Mártires de Kifangondo é conhecido como a alternativa à banca devido à escassez das divisas, apesar dos preços especulativos e altos com que é feito o negócio. No mercado formal, uma nota de 100 dólares está a ser comercializada a mais de 30 mil kwanzas, no mercado informal, o mesmo valor chega aos 40 mil kwanzas. No Mártires, não apenas se compram divisas, como também são vendidas a quem esteja interessado a ter kwanzas.

Em Dezembro do ano passado, a polícia fez uma mega-operação para desmantelar a venda de divisas no Mártires. Foram apreendidas duas máquinas de fabrico de dinheiro, oito milhões de dólares, 16 milhões de euros. Na operação, foram ainda apreendidos diamantes e avultadas somas de kwanzas e outras moedas estrangeiras, como rands.

Bancos voltam a vender dólares

Em Agosto, o Banco Nacional de Angola (BNA) voltou à venda de divisas à banca comercial, exclusivamente a moeda americana, para garantir a cobertura de operações gerais, excluindo adiantamentos a favor de ‘tradings’, ‘offshores’ e sociedades unipessoais, informou a instituição. Desde 16 de Outubro de 2016 que o BNA não fazia leilões com o dólar norte-americano.

A interrupção de injecção da moeda norte-americana deu-se em 2015, após o Grupo de Acção Financeira (Gafi), uma instituição sediada em Paris,  França, para combater o branqueamento de capitais e financiamento do terrorismo, ter colocado Angola numa denominada ‘lista cinzenta’, por suspeitas de que o país pudesse estar a financiar redes de terrorismo e ainda terão sido detectadas práticas de branqueamento de capitais, envolvendo somas anuais de milhões de dólares.