José Armando Sayovo, ex-atleta paralímpico

De amado a completamente esquecido

O mais medalhado atleta da história do desporto em Angola queixa-se de ter caído no esquecimento e de sobreviver apenas com um subsídio por ter sido militar. Tem terrenos, mas não consegue fazer nada com eles. Quer montar um restaurante, mas faltam-lhe meios. Já perdeu a audição, mas não tem dinheiro para ser operado no estrangeiro. O que lhe resta é uma taça com o seu nome.

De amado a completamente esquecido
Santos Sumuesseca
ex-atleta

O antigo atleta, que serviu o desporto durante 18 anos, revela que tudo o que possui conseguiu como militar, e do desporto apenas levou para casa “beijos e abraços”.

José Armando Sayovo, de 46 anos, poderia ter um fim trágico, quando, a 25 de Agosto de 1997, o carro em que seguia accionou uma mina. Os estilhaços cegaram-no. Em 1999, trocou a farda militar pelos equipamentos desportivos, marcando assim, o início de uma carreira desportiva coroada de êxitos. Foi na sua residência na centralidade do Sequele, em Cacuaco, em que o antigo velocista e a família receberam o NG num sábado de muito sol e até ‘assustava’ os transeuntes, convidando a um mergulho na piscina ou praia. Sayovo contínua a ser a principal referência do desporto adaptado em Angola e não é por acaso que existe uma competição de cariz internacional com o seu nome e com direito a verbas cabimentadas no Orçamento Geral do Estado (OGE).

Mas, afinal, a vida de uma das figuras proeminentes do desporto em Angola não tem sido um mar de rosas e ele confessa sentir necessidade de ter apoios para sobreviver. Com um agregado familiar constituindo por mais de oito membros, a maior do atletismo do desporto adaptado na classe T11, cegueira total, sobrevive da pensão que recebe das Forças Armadas Angolanas (FAA) que não consegue cobrir as necessidades diárias da família.

“O que seria de mim, se não fosse militar?”, questiona-se Sayovo. Foi obrigado a arrendar a residência que recebeu nas mãos do antigo Presidente da República na Urbanização Nova Vida, em Luanda. O antigo atleta, que serviu o desporto durante 18 anos, revela que tudo o que possui conseguiu como militar, e do desporto apenas levou para casa “beijos e abraços”. E sobre a taça que leva o seu próprio, revela nunca ter recebido qualquer subsídio do Comité Paralímpico Angolano (CPA), mas apenas água para matar a sede, quando é convidado. Entende, por isso, que o seu nome tem sido usado de “forma abusiva para o benefício de outras pessoas”.

José Sayovo considera-se uma pessoa calma e caseira e sempre ao lado da família. Levanta-se às quatro horas, começando o dia com alguns exercícios físicos de uma hora no pequeno ginásio da sua casa. Depois do pequeno-almoço, acompanha as crianças à escola e, na companhia da esposa, visita a obra que está a ser erguida para servir de restaurante. Mas está meio parada por falta de materiais de construção.

 

FORÇADO A TERMINAR

A esposa, Arlete Linda, sente que o seu companheiro ainda tem vontade de correr, mas que foi “forçado a terminar a carreira, sem que tivesse direito a uma conferência de imprensa para explicar as razões de ter abandonado as pistas. Sayovo conta que foi chamado e informado que não poderia viajar para os jogos africanos do Congo Brazzaville, devendo terminar a carreira, alegando ter a idade avançada e também excesso de vitórias. De acordo com Sayovo, a ideia era encerrar a carreira em 2016 nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro e não em 2012, como aconteceu. “Foi tanto sacrifício para pouco benefício”.

PROJECTOS

O antigo atleta revela que dispõe de vários projectos, mas a falta de financiamento obriga a que alguns se encontrem engavetados. O projecto Associação dos Amigos do Sayovo é um que foi erguido. É na Funda, Cacuaco, mas tem âmbito nacional e alberga 280 crianças, 200 das quais portadoras de deficiências e 80 sem deficiência. A ideia é massificar o atletismo e o basquetebol em cadeiras. Criado em 2014, fora de Luanda, Kwanza-Sul, Huíla, Namibe, Kwanza-Norte também tiveram oportunidade de receber as iniciativas desportivas da associação. Para este ano, estão planeadas visitas a mais quatro províncias.

Para tentar dar sustentabilidade ao projecto desportivo, a agricultura também faz parte da lista de prioridades de Sayovo. Dispõe de várias parcelas de terreno no Huambo e no Kwanza-Norte, mas também a falta de apoios e de patrocínios condicionam o arranque. Por isso, o ex-atleta lança um repto aos empresários e particulares para que prestem ajudas, em dinheiro, fertilizantes e sementes. Sem papas na língua, Arlete Linda orgulha-se de ter um marido que “foi e continua a ser o percursor do desporto adaptado em Angola” e entende que o seu companheiro não tem tido a mesma atenção depois de se retirar das pistas. “Está no esquecimento e só se lembram dele quando se aproxima a disputa da taça com o seu nome”. Conta que o seu marido não está a usufruir dos benefícios que conquistou durante os 18 anos dedicados ao desporto adaptado. Passa por várias necessidades e até lhe tem faltado dinheiro para comprar combustível para o seu velho carro, uma oferta do antigo chefe do Estado Maior General das FAA. “Isto frustra-nos.”

 

PROBLEMAS DE SAÚDE

Desde 2012 que o antigo velocista está com problemas de audição. Já nas competições, não ouvia em condições os tiros de largada. Após a retirada das pistas, a situação persiste devido a um estilhaço do tempo da guerra que ainda se encontra no ouvido. A família está preocupada, temendo que ele possa perder a audição. Precisa de fazer uma intervenção cirúrgica no Brasil, onde esteve no último tratamento. “Ele já é cego e imagina agora perder audição total…”, queixa-se a esposa

 

Papa-medalha

Nascido em Katabola (Bié), a 3 de Março de 1973, José Sayovo tornou-se no primeiro atleta a ganhar medalhas para Angola nos Jogos Paralímpicos, na Grécia, conquistando três ouros nos 100, 200 e 400 metros, em 2004. Sayovo representou Angola em várias competições internacionais, onde sempre obteve medalhas, o que faz dele o maior medalhista dos desportos adaptados em Angola.

Nos Paralímpicos de 2008, em Bejing, China, foi o porta-bandeira na cerimónia de abertura dos Jogos e conquistou três medalhas de prata, nos 100, 200 e 400 metros. Aos 39 anos, naquele que seria o último Paralímpico de Londres, em 2012, conquistou uma medalha de bronze nos 200 metros e uma de ouro nos 400 metros. Foi medalha de prata no Campeonato do Mundo de Corta-Mato 2000, em Portugal e no Mundial de Atletismo exclusivo a deficientes visuais (IBSA) em 2003, no Canadá. Venceu três ouros e foi recordista mundial nos 400 metros. Além de ter medalhas de ouro, prata e bronze em campeonatos e mundiais de atletismo, disputados na Tunísia, Holanda, Brasil, Marrocos e Turquia.