Parteiras aceitam o desafio de serem voluntárias

Depois da reforma, o regresso à maternidade

Antigas funcionárias da maternidade ‘Lucrécia Paim’ regressam em regime de voluntariado. Aceitaram o convite da actual direcção. Querem ajudar as mais novas e provar que existe amor à profissão. Garantem que encontraram melhores condições hospitalares, do que quando trabalhavam a tempo inteiro.

Depois da reforma, o regresso à maternidade
Manuel Tomás
Delfina Belem

Delfina Belem parteira

Os partos, actualmente, têm sido realizados com maior segurança e não com os riscos que se corriam anteriormente.

Na maternidade ‘Lucrécia Paim’, em Luanda, há um grupo de parteiras que trabalham de forma voluntaria e que contribuem para a reestruturação das salas de partos. As especialistas eram funcionárias da maternidade com mais de 30 anos de serviço. Atingida a idade da reforma, por obrigação da lei, foram dispensadas. Depois da nomeação da actual direcção, os responsáveis entenderam convidá-las para se juntarem às novas parteiras, recém-formadas, e passarem as suas experiências.

Neste grupo, encontra-se a parteira que participou na equipa que ajudou a nascer, por duas vezes, os filhos da antiga primeira-dama, Ana Paula dos Santos. Um dos partos foi realizado na maternidade e outro na clínica Sagrada Esperança.

A enfermeira Rita Marques Jacinto, especialista em partos, trabalhou na maternidade durante 39 anos. Foi, como manda a lei, para a reforma depois dos longos anos de serviço. Por “amor à profissão”, continua a exercer a função, mas, como voluntária.

Recorda que, no tempo em que estava no activo, o exercício das suas funções era “péssimo”, devido à falta de condições, contra as existentes actualmente, que “permitem salvar os recém-nascidos sem grandes esforços”. Os partos, actualmente, têm sido realizados com maior segurança e “não com os riscos que se corriam anteriormente”. Quanto à interacção com as novas parteiras, considera ser “boa”, por o serviço de saúde exigir humanismo e busca constante pelo conhecimento.

Dos muitos partos realizados, em 39 anos, há um que continua a marcar a sua vida: o de uma jovem de 17 anos, que ficou grávida por causa de uma violação sexual. Ao aperceber-se que o crime resultou numa gravidez, a jovem fugiu da casa dos pais, indo viver com uma prima, escondendo a sua situação. No dia do parto, teve dores na rua, tendo-se deslocado sozinha à maternidade ‘Lucrécia Paim’. Depois de ter a criança, “não aceitou levar o bebé”. Rita Marques Jacinto teve de fazer um trabalho de aconselhamento psicológico até a convencer a aceitar a criança. “Mesmo assim, não aceitava a criança”, lembra. Depois de um longo período de ‘negociações’ com a família e da ajuda parteira, aceitou a criança, com uma condição: que se chamasse Rita.

A especialista, que já ajudou no parto das suas filhas, considera ser “difícil fazer parto a familiares, sobretudo quando se trata de filhas”. “Elas sentem medo e não ficam à vontade, pelo que preferimos chamar as colegas”, justifica.

Delfina Belém, ao longo de 35 anos de profissão, recorda os dois partos que a marcaram: foram o dos filhos de Ana Paula dos Santos, Danilo, na maternidade ‘Lucrécia Paim’, e de Joseana, na clínica Sagrada Esperança. A especialista integrou as duas equipas, pelo que os dois partos estão gravados na sua memória.

A parteira recorda-se que, no nascimento de Danilo, os serviços de saúde estavam em greve. Dias antes, a equipa, constituída por oito pessoas, foi seleccionada, com as especialistas escolhidas ‘a dedo’ e preparadas para cumprirem o desejo da gestante, que sempre quis ter os filhos em Angola.

Delfina Belém passou à reforma e foi agora convidada a regressar como voluntária, pela actual direcção da maternidade. A ideia é passar o testemunho às novas parteiras e também contribuir para a reestruturação das salas.

Por sua vez, Efigénia Manuel não encontra comparação entre o período em que estavam no activo ao actual, por reconhecer melhorias nas condições de trabalho. Durante 35 anos, não teve um parto a tivesse marcado. Considera que todos lhe marcaram e quando passa pelas ruas é reconhecida por muitas parturientes, que lhe apresentam os filhos já com mais de 25 anos. “Sinto uma grande alegria quando isso acontece, as outras pessoas deslocam-se mesmo à maternidade para apresentar os filhos”.

Por isso, olha para a profissão como “gratificante quando o parto corre bem, todos celebramos por ajudar a trazer ao mundo uma criança, ver a alegria nos rostos das mães ou dos familiares”.

Na maternidade, o grupo, constituído por mulheres acima dos 50 anos, cumpre diversos turnos diários.