João Lourenço numa visita oficial de três dias

Um ‘namoro’ entre Angola e Portugal

É uma autêntica operação de charme que João Lourenço se propõe fazer em Portugal. Discursa no parlamento, vai ‘seduzir’ investidores, tem encontros privados com Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa e agendou uma mega-conferência de imprensa aberta a todos os jornalistas, nacionais e estrangeiros. Portugal retribui com honras.

Um ‘namoro’ entre Angola e Portugal

Depois de estar ultrapassado aquilo que foi classificado como “irritante”, nas relações entre Angola e Portugal, João Lourenço vai ser recebido em Lisboa com honras apenas dirigidas a muito poucos chefes de Estado. A começar pela Assembleia da República que lhe cedeu a tribuna para discursar, logo no primeiro dia de visita, que se inicia esta quinta-feira e se prolonga até ao próximo sábado.

No parlamento português, há muito que o poder angolano conseguiu reunir consensos. Por razões ideológicas ou meramente por pragmatismo económico, da esquerda à direita, os partidos portugueses, com a excepção do Bloco de Esquerda, têm feito vénias ao poder liderado pelo MPLA. Aqui, o chefe de Estado angolano vai encontrar ‘velhos’ amigos, como o Partido Comunista Português (PCP), ligado ao MPLA desde sempre, ‘novos’ amigos da Internacional Socialista, junto do Partido Socialista (PS), e ‘aliados’ mais recentes, o grupo de direita, que junta Partido Social Democrata (PSD) e o Centro Democrático e Social (CDS).  Dificilmente, João Lourenço, nas intervenções dos partidos políticos, ouvirá críticas ou reparos. 

Nem o ambiente é para isso. Por exemplo, a Presidência portuguesa, no anúncio do programa da visita, destaca-a como “forte componente político-diplomática e também económica” que “pretende dar continuidade ao importante trabalho desenvolvido durante a visita do primeiro-ministro a Luanda, em Setembro, de forma a consolidar o já estreito relacionamento entre os dois países nas mais diversas áreas”. O gabinete de Marcelo Rebelo de Sousa realça que a visita “pretende ilustrar a grande proximidade existente entre os povos dos dois países, alicerçada na riqueza do passado e, sobretudo, em importantes projectos do futuro”.

 


Na ‘sedução’

Na agenda carregada de três dias, João Lourenço vai tentar ‘seduzir’ empresários portugueses, não apenas para exportarem para Angola, mas para investirem em projectos e infra-estruturas que se mantenham no país, como revelou ser a sua intenção, numa recente entrevista ao jornal português ‘Expresso’.

Aliás, o cuidado dos dois lados, Luanda e Lisboa, em dar uma dimensão maior à visita, também passou pela comunicação social. João Lourenço concedeu uma entrevista ao principal semanário português. Marcelo Rebelo de Sousa foi entrevistado pelos canais públicos angolanos, chegando a surpreender-se, à RNA, por ser chamado em Angola de ‘Ti Celito’. 

No sábado, está prevista uma “mega conferência de imprensa” do Presidente da República, com a presença de todos os jornalistas, nacionais e estrangeiros, poucas horas antes de João Lourenço almoçar, em privado, com o presidente português, que vai marcar o final da visita. 

Pelos bastidores da política portuguesa, é notório o esforço de ser a Presidência da República a ‘comandar’ as operações, reservando para ‘segundo plano’ a acção do governo, liderado por António Costa.

Antes do discurso na Assembleia da República, João Lourenço recebe as habituais honras militares e as chaves da capital portuguesa, num  gesto simbólico, reservado a chefes de Estado ou altas figuras das artes e da cultura. Depois, discursa no Parlamento e, logo a seguir, janta com Marcelo Rebelo de Sousa, em privado, na primeira refeição conjunta da visita. Depois, no sábado, voltam a almoçar no Palácio de Belém. 

João Lourenço reservou a sexta-feira para uma autêntica ofensiva económica e diplomática. Tem um encontro com empresários do Norte, onde estão instaladas as principais indústrias portuguesas. É nesta reunião que o Presidente angolano prevê cativar investimentos de grande envergadura de portugueses. 

Depois, o Presidente da República almoça com o primeiro-ministro português. Os dois chefes de governo devem discutir a regularização da dívida a Portugal, além de discutirem diversos acordos de cooperação.  Apesar de prevenir que tem a intenção de captar investimentos, João Lourenço não descarta a possibilidade de assinar acordos ligados à cultura e sobretudo à educação. O Presidente da República já fez saber que Angola está interessada em captar mais professores portugueses.