Tony Cabaça, na visão dos familiares e amigos

Um jovem “forte” que “não deixou o dinheiro tirar-lhe a humildade”

Gosta muito de arroz com feijão. Já foi ajudante de ‘bate-chapa’. No bairro, raramente se envolvia em brigas, mas, quando se exaltava, o melhor para o visado era fugir. Com uma “humildade” que nem o dinheiro conseguiu tirar, Tony Cabaça, o guarda-redes que qualificou o 1.º de Agosto para as meias-finais da ‘champions’ de África, é o “orgulho” de familiares e amigos.

Um jovem “forte” que “não deixou o dinheiro tirar-lhe a humildade”
Santos Samuesseca
Ana Bango

Ana Bangomãe

Na infância, recorda a mãe, Cabaça ignorava todos os brinquedos, concentrando as atenções na bola.

"Vou falar mesmo, mas não me tirem foto, porque o meu filho pode não gostar”, diz Ana Bango, mãe de Tony Cabaça, convidando os jornalistas a entrar para o quintal onde o filho residia, antes de se tornar num guarda-redes famoso por defender grandes penalidades no terreno dos adversários: dois na passada sexta-feira, em Lubumbashi, quando o 1.º de Agosto eliminou os congoleses do TP Mazembe; e três em Março, quando os ‘militares’ foram à Africa do Sul vencer o Bidvest Wits, num jogo em que Cabaça até começou no banco, mas entrou já quase aos 90 minutos para colocar o tricampeão angolano na fase de grupos da Liga dos Campeões Africanos.

Mas estes são dados que Ana Bango desconhece, até porque não costuma assistir aos jogos do filho. Aos 59 anos, esta malanjina revela que costuma sentir “muita dor no coração” quando vê Cabaça deitado no chão por causa do choque com um adversário. Por isso, na passada sexta-feira, enquanto amigos e familiares vibravam com as defesas do camisola 12 do ‘D’Agosto’, a tia Ana, como também é tratada, estava a tomar conta da bancada que tem à porta de casa, onde vende banana assada com jinguba. Contudo, no final do jogo, não conseguiu ficar fora da festa. A casa foi ‘invadida’ pelos vizinhos residentes na rua 6 do Golf 1, arredores do Bairro Malanjino, em Luanda. “Aqui, estava quente. O jantar que fiz… nem jantei. Todas as mães do bairro vieram cá em casa e os moços quase que arrancaram o nosso tecto. Estava bem cheio, bem cheio mesmo”, recorda.

Um jovem “forte” que “não deixou o dinheiro tirar-lhe a humildade”

Sobre o sucesso do filho, Ana Bango assegura nunca ter tido dúvidas, pois o rapaz sempre foi apegado ao futebol. Na infância, recorda a mãe, Cabaça ignorava todos os brinquedos, concentrando as atenções na bola. Muitas vezes, o ‘miúdo’ ficava até “muito tarde” na rua a jogar, mesmo nos dias de chuva, o que levava o falecido pai a lançar-se contra a mãe, acusando-a de estar a criar um “bandido”. Feliz por o marido ter errado na previsão do futuro do filho, Ana Bango assegura que Tony Cabaça sempre foi um miúdo que “nunca deu nenhum trabalho”, embora gostasse de “comer muito, principalmente arroz com feijão”. 

De repente, a conversa com Ana Bango é interrompida por uma chamada telefónica. Do outro lado da linha, Tony Cabaça, que agora reside em Viana, ralha com um dos sobrinhos por este ter autorizado a reportagem. É preciso, por isso, que os jornalistas intervenham, explicando ao guarda-redes do 1.º de Agosto que a matéria não visa denegrir a imagem de ninguém e que o foco é apenas mostrar o outro lado do atleta, na visão de familiares e amigos.

Cabaça compreende e, além de autorizar a mãe a deixar-se fotografar, sugere que os jornalistas conversem também com o vizinho João da Silva, ou simplesmente ‘mestre Quito’, por alegadamente se tratar de um mais-velho cujos conselhos “influenciaram positivamente” a vida do atleta. Entretanto, antes de descobrir o que liga ‘mestre Quito’ ao guarda-redes do 1.º de Agosto, há ainda tempo para conversa com Benjamim Cabaça, de 19 anos, e Rosa Bango, de 16, ambos sobrinhos de Tony Cabaça. O primeiro, também futebolista dos escalões de formação do ASA, considera o tio “um verdadeiro pai” que sempre presta apoio financeiro à família, enquanto a segunda se sente “muito orgulhosa” por ser abordada na rua por jovens e senhores que a acham “muito parecida” com o tio.

Antigo ‘bate-chapa’

Aos 56 anos, João da Silva, ou simplesmente ‘mestre Quito’, já não se recorda quando conheceu Tony Cabaça. O mecânico lembra-se apenas de, certo dia, o pai do atleta ter ido à oficina com o filho, pedindo para este, aos 12 anos, ser colocado entre os ajudantes que haveriam de aprender a profissão de bate-chapa. “Trabalhou comigo, mas continuava a estudar e a treinar no ASA, até ir para o 1.º de Agosto”, lembra ‘mestre Quito’, assegurando que, apesar de se ter tornado num jogador famoso, o antigo ajudante “não mudou nada”, continua “muito humilde” e até costuma dar “alguns patrocínios” na manutenção da oficina. Quando visita o bairro, de acordo com João da Silva, Tony Cabaça cumprimenta todos e não deixa de “pagar qualquer coisa” à malta, independentemente do tipo de bebida que cada um estiver a consumir.

Um jovem “forte” que “não deixou o dinheiro tirar-lhe a humildade”

Por falar em bebida, Cabaça parece não ter boa relação com o ‘lúpulo’, pois, certa vez, antes mesmo de ascender à categoria de sénior, os amigos organizaram um convívio na praia e o jogador jurou “nunca mais” consumir álcool, tal foi a ‘bebedeira’ que apanhou, com vómitos e dor de cabeça. A revelação é de Miguel Missoque, mais conhecido por Meguê, um amigo de infância que frequentou a oficina do ‘mestre Quito’ na mesma altura que Cabaça. “Dizem que o dinheiro tira a humildade, mas o Tony não mudou. É o mesmo de sempre, valoriza todos”, assegura Meguê, que é uma espécie de ‘cicerone’ do atleta, pois é uma das pessoas a quem Cabaça, agora residente noutro bairro, costuma recorrer quando precisa de alguém que acuda a família que ficou no Golf 1.

Outros amigos descrevem Cabaça como “um gajo que sempre teve muita força”. No bairro, contam os ‘kambas’, o atleta raramente se envolvia em brigas. No entanto, quando o provocassem, ninguém conseguia travá-lo. De acordo com José Rodrigues, outro amigo de infância, quando Tony estivesse exaltado, o melhor que os visados podiam fazer era fugir. Mais conhecido por ‘China’, José Rodrigues recorda-se de, certa vez, se ter envolvido numa briga com um amigo e, embora os vizinhos e familiares tentassem separá-los, a luta não terminava. Então, a solução foi chamar Tony Cabaça, que terminou com a briga, dando ‘porrada’ aos dois. ‘China’, contudo, tem tanta admiração pelo amigo que, mesmo sendo adepto dos ‘amarelinhos’, costuma puxar pelo ‘D’Agosto’ nos jogos em que os ‘militares’ defrontam o Petro de Luanda. E, como homenagem, associou-se aos moradores do Golf 1, em Luanda, que criaram uma equipa de futebol denominada ‘Amigos de Tony Cabaça’.

Do bairro para o estrelato

Adão Joaquim Bango Cabaça, mais conhecido por Tony Cabaça, é um futebolista luandense nascido há 32 anos. Formado nas escolas do 1.º de Agosto, ascendeu a sénior em 2006. Já jogou pelo Desportivo da Huíla, por empréstimo. No ‘D’Agosto’, é o segundo guarda-redes, mas, devido à lesão de Neblu, tem actuado de início, com exibições bastante elogiadas, como na partida em que defendeu duas grandes penalidades e ajudou os ‘militares’ a eliminar os congoleses do TP Mazembe. Com o 1º de Agosto, conquistou quatro campeonatos nacionais: 2006, 2016, 2017 e 2018.