Telefone Kaytele

Ele mesmo cantou: “Kapake itima ku mulu (3x), ku lwanda kitoka!” (Prestei toda atenção ao norte e a coisa veio do Sul). Assim foi a morte deste insigne filho da Kibala e de Angola. Toda a atenção virada para idosos doentes, a má nova veio surpreendente. Kahinza Wahi!

Atenção, partiu um ‘artista menor’. Apelei que cantássemos e não chorássemos, quando recebi a triste notícia da partida do líder do grupo folclórico do Kwanza-Sul, Kumbi Li Xya, Kahinza de sua graça.

- Cantemos, recordando canções como: "Telefone ya Sumbe kaytele", tio ngunga ku Uiji watundu, muhapila nengosu, mbila mu Kwanza-Sulu!", entre outras quetas épicas e repletas de estórias e vivências kwanza-sulinas – apelei, numa conversa com EC.

Porém, fui dos primeiros a chorar ao me aperceber que uma jornalista,  se apercebendo do infausto acontecimento, informou ao realizador de um noticiário sabatino, a fim de ser levado ao mundo a má-nova.

- Informei antes de o Jornal começar, porém, a notícia sobre o calar da voz do grande artista que foi Kahinza não passou – disse constringida e contrariada a jornalista.

E, ao que soube, naquele magazine de uma hora, foi dito tudo, menos a morte de Kahinza. Terá sido considerado um ‘artista menor’?

Terá sido impopular ao não cantar os ritmos da ‘metrópole angolana’?

Terá desencantado mais do que cantado? Ou da venda de seus discos, sempre no Katinton, terá descontado poucos?

Partiu o autor de "umbumba kumbumba, kumbondo kutundu nyañwa", "mona way mwangope, kuwana omala kê way", ou "viva a paz, Angola está unida" ou ainda "Ki kwitena kwayaxike", só para lembrar. Ou terá sido a ‘sembização’ da música angolana, que ofusca olhar para o lado e enxergar outras realidades e outros ritmos, que impediu o hierarquizar noticioso de pensar que não há arte regional (música, pintura, dança, literatura, arquitectura, cinema, teatro, moda, etc.) nem cultura menor?

Kahinza, quanto a mim, era um artista de viola e voz firme. Suas canções levantaram poeira e continuarão a fazê-lo nos quintais do Prenda, Dangereux, Rangel, Kikolo, Rocha Pinto, Saneamento e em todos os bairros e aldeias de Angola onde habitem kwanza-sulinos e apreciadores do cancioneiro popular.

Assim como os políticos e os jornalistas são excelentes no que fazem, independente do lugar geográfico em que tenham nascido ou vivam, tal são os músicos do povo que cantam a vida e as malambas do povo. Kahinza foi um deles. É uma pena que o seu ‘telefone’ não esteja mais a receber chamadas. Telefone kaytele!

 

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