Faltam meios, apoios e condições

Teatro infantil ainda a engatinhar

O teatro infantil em Angola tem dado alguns passos significativos. Quando se aproxima o mês da criança, é comum encontrar variados espectáculos dedicados aos mais pequenos, mas os profissionais queixam-se da falta de formadores e de espaços.

Teatro infantil ainda    a engatinhar
Sophia Buco,

Sophia Buco, actriz e produtora teatral

Se as crianças tiverem aulas de teatro desde pequeninos, já iria ajudar imenso no desenvolvimento da arte.

 
Adelino Caracol dirige e encena um dos grupos mais conceituados do teatro em Angola, o Horizonte Njinga Mbande. Com mais de 30 anos, o grupo não se dedica só a adultos. Com alguma frequência, por via do seu núcleo infantil, apresenta espectáculos para os mais novos e até chega a dar formação na área. 

Apesar da notoriedade, o director do grupo considera que ainda “falta fazer mais” e prevê que, dentro de cinco anos, o estado desta arte possa “estar na mesma”. Alerta que são precisos formadores, por “não ser fácil trabalhar com crianças” e que precisam de programas e conteúdos específicos. 

Adelino Caracol crê que “todo o mundo que se propõe a trabalhar com crianças deve buscar formação”. “É complicado que a gente deforme, porque pode ficar deformada para toda a vida”, alerta. Propõe ainda que haja uma ligação “mais permanente” entre os ministérios da Cultura e da Educação para se gerir as artes dentro do sistema escolar estatal. “É importante darmos atenção, no sentido pedagógico e didáctico, porque hoje o sistema de ensino vai mudando e precisamos de ser muito didácticos”. 

 

Público satisfaz, mas custos elevados

Adelino Caracol admite que as peças infantis conseguem agregar “um bom número” de espectadores e até recebem queixas dos pais e encarregados de educação quando faltam espectáculos. “Infelizmente, cenas infantis carecem de mais gastos, mais investimentos, porque a criança também tem um sentido crítico muito activo“, defende. “Não podemos defraudar os pais nem as crianças”, afirma.

O encenador chama ainda atenção para se ter cuidado com os conteúdos para que não se siga os exemplos da música e da dança: “A forma como algumas crianças cantam e rebolam não tem nada a ver com crianças, é importante que se comece a educar e a seleccionar o tipo de mensagens que se leva até elas”.

O Horizonte Njinga Mbande orgulha-se de trabalhar “com conteúdos que ensinam a criança a humanizar-se, a serem solidárias, a terem amor pela pátria, amor próprio e ao próximo”. Para Julho, o grupo está a preparar um festival dedicado às crianças com muitas acrobacias, alguns números de magia, dança e adaptação de alguns contos. 

Cláudio Holanda é outro homem ligado à representação infantil, mas mais crítico:“Não existe apoio do Governo e das empresas. A indústria de cerveja quer o adolescente e o adulto e a indústria da telecomunicação quer o adolescente e o adulto e, infelizmente, focando mais no sexo, e na sensualidade do que em ver a criança e o adolescente como o futuro de Angola e do amanhã”. 

O responsável do projecto da ‘Malta da Paz e da Alegria’ acredita que falta uma consciencialização e um olhar para criança. Considera os grupos que ainda apresentam peças infantis de “resistentes que merecem apoios e homenagens”. 

Cláudio Holanda explica que a pouca produção de teatro infantil se deve também ao distanciamento dos escritores com os grupos de teatro.

 
Estado não é obrigado a apoiar

O Grupo Experimental de Teatro e Animação é composto por seis jovens que trabalham para crianças. O encenador entende que há um trabalho que precisa de ser feito e que passa por “rebuscar clientes para o teatro”. “Não é uma arte muito fácil de conquistar e ainda estamos no processo de mobilização e de despertar o interesse”, resume Paulo Bolota.

Independentemente de não ter crianças no grupo que dirige, Paulo Bolota gosta de trabalhar com crianças, o que é “sempre enriquecedor” e ajuda na formação: “Por toda a lógica que o teatro representa, facilita o raciocínio. Só há vantagem em as crianças frequentarem e/ou até trabalharem em teatro”. Mas confessa que prefere sempre trabalhar com adultos porque a linguagem é muito mais fácil de ser transmitida. 

Sem qualquer tipo de apoio, o grupo mantém-se por meios próprios e com parcerias resultantes das receitas com a venda de espectáculos. Ligado ao teatro há 30 anos, Bolota não quer “exactamente um apoio financeiro”. “O Ministério da Cultura e todos os organismos deviam criar as condições para que o teatro e outras artes se desenvolvam, nomeadamente, termos várias salas que pudessem ser alugadas por bons preços. Há essa tendência de ficarmos sentados à espera que o dinheiro nos caia. O Ministério não tem exactamente esta obrigação. Tem a obrigação de criar todas as condições para podermos trabalhar”, remata.

Para celebrar o mês da criança, o grupo tem exibido espectáculos todos os dias no ‘shopping’ Avenida, em Luanda, das 14 às 18 horas e, no fim de semana, das 9 às 18 horas, com entradas gratuitas.

 
Falta de atenção

Além de actriz, Sophia Buco é produtora teatral, há dois anos. Soma mais de 20 espectáculos, entre eles a peça infantil ‘Njinga Pequena Guerreira’ do grupo Catarses. Na estreia, teve dificuldades em arranjar patrocínios e apoios, mas não se deixou abater e fez o espectáculo. “Fiz a produção, mudámos completamente a plástica; só que nos deparámos com uma situação: em Junho, há muitas actividades e muitas delas, de alguma forma, menosprezam o trabalho que é desenvolvido pelos angolanos”. 

Recorda-se de que, quando montou a peça infantil, o espectáculo ‘Panda e os Caricas’ veio para Angola, pela Zap. “Não tem como os angolanos verem uma peça infantil quando vão deparar-se com uma outra estrutura com melhores capacidades das que eu tinha.  Obviamente, fiquei sem possibilidade nenhuma, mas, mesmo assim, fomos avante, fizemos a peça e não houve lucros nenhum. Foi um investimento que fiz porque gosto de crianças, mas não teve lucros”, reconhece.

A jovem, por agora, opta apenas por trabalhar com adultos e aguarda que pessoas ligadas à área infantil possam dar sequência.

Sophia Buco sugere ainda que se coloque o teatro no plano curricular das crianças, porque as escolas têm espaços que podiam servir para salas. “Se tiverem aulas de teatro desde pequeninos, já iria ajudar imenso no desenvolvimento da arte e ainda podem conhecer muito sobre a história do país de forma criativa e dinâmica e podem tornar-se adultos intelectuais, com uma cultura acima da média e que respeita a cidadania, o patriotismo e solidariedade”, acredita.

 

Sem inibições 

O teatro infantil tem uma importância fundamental na educação, podendo colaborar para que a criança tenha oportunidade de actuar efectivamente no mundo, opinar, criticar, sugerir e também permite ajudar os baixinhos a desenvolver a criatividade, coordenação, memorização e vocabulário.


Em entrevista ao NG, o sociólogo Lucamba Capembe defende que a representação infantil “ajuda a desenvolver a criatividade e a construir um universo cultural da própria criança, bem como a explorar a imaginação, autoconfiança”, sendo “um meio de mobilização social e, quando feito a partir de tenra idade, passa pela mudança de mentalidade e/ou adopção de bons hábitos”. 

Por isso, aconselha os pais a incentivarem os filhos a assistirem a peças teatrais infantis  para despertar curiosidade e interesse.