Sem reforma

Já escrevi nestas páginas que considerava José Eduardo dos Santos um peixe de águas profundas. Reafirmo-o hoje. Ao contrário dos peixes que habitam em águas menos profundas, os de lá de baixo são mais calmos, ‘caçam’ apenas o que interessa, dominam os mares e raramente são apanhados. Caracterizam-se pelo sangue frio. E, como se sabe, ter sangue frio é crucial em muitas etapas da nossa vida. Especialmente para quem é político profissional.

É esta sensação que se tem quando se estuda a personalidade e o percurso político do homem que nos governou durante 38 anos. Na hora de se despedir da vida política activa, José Eduardo dos Santos deixa um legado de uma certa forma de fazer política. Cínico, muitas vezes, pragmático, grande parte do tempo, hábil a gerir silêncios e imperscrutável no pensamento e na acção. Nem sei mesmo se os mais próximos, que lidaram com ele durante décadas, conseguem adivinhar-lhe o pensamento.

É por isso que o congresso do MPLA deste sábado lança também uma incógnita: o que fará José Eduardo dos Santos a partir de agora? Provavelmente, vai dedicar-se às questões sociais, como ele próprio prometeu.

Mas um político como ele não devia entrar já para a reforma. Internamente, cumpriu, bem ou mal, conforme as emoções de cada um, com o seu papel. Fez o melhor que sabia, ele próprio colhido de surpresa quando Lúcio Lara o empurrou para a Presidência do país. Torneou as dificuldades e, se lhe perguntarem se estaria à espera de governar tanto tempo, certamente diria que não.

Essa capacidade de se adaptar poderia ser aplicada agora. Se, na gestão interna, é alvo de muitas críticas, na diplomacia foi um mestre. É certo que soube usar o poder económico de Angola e a posição geo-estratégica do país. Mas fê-lo com habilidade. É nesta vertente que José Eduardo dos Santos daria um excelente mediador de conflitos, não só por África. Tem experiência suficiente, tranquilidade quanto baste e uma gestão de tempo de um peixe de águas profundas. Era só ultrapassar o medo de viajar…