Seduções

Contam-me, dos bastidores da política, que o Presidente da República não terá gostado da expressão usada pelo NG – ‘voador’ – que serviu para resumir o número de viagens de João Lourenço desde que foi empossado. 

Só se entende o azedume do Presidente por uma certa falta de hábito de conviver com expressões que fogem da linguagem oficial e institucional. Mesmo que o seu Governo apregoe aos quatro ventos, cá e lá fora, de que há uma maior abertura na comunicação, com os jornais a serem “mais livres”. Talvez seja assim, mas há sempre quem goste de mostrar os sinais de trânsito.

Até porque, em relação às viagens presidenciais, o artigo (quase) elogia o esforço do Presidente em captar investimentos estrangeiros nos quatro continentes. O que, no caso, tem sido mesmo no mundo todo, só faltando um ‘salto’ à Austrália para fazer o pleno.

Esta semana, João Lourenço retomou a diplomacia de sedução, desta vez, virada para os empresários do Emirados Árabes Unidos. Aconselhando-os a “não ter medo”, elencando as razões para virem para Angola: desde o combate à corrupção ao ambiente de negócios.

Esse esforço presidencial deve ser aplaudido, mas com reservas. Como muitos gestores se têm queixado, não se vê o mesmo empenho em atrair empresários nacionais a investir no próprio país. E, tanto angolanos como estrangeiros, podem desconfiar das políticas que estão a ser seguidas que dão pouca – ou quase nenhuma – tranquilidade.

Por exemplo, que confiança se pode dar a um empresário que quererá investir num banco, que recebe, tempos depois, ordem para encerrar sem motivo substancial?

Que tranquilidade se transmite a quem queira comprar terrenos, quando estes podem não ter papéis em ordem e a justiça demora séculos a intervir?

Que empresário confia em colocar, por cá, meios de transporte que podem ser simplesmente desfeitos numa estrada?

Que investidor pode apostar em contratar quadros nacionais se o próprio Estado se demite de os formar? Já para não falar do terror que é a burocracia.

Para captar os tão desejados investimentos estrangeiros não bastam discursos e viagens. É preciso, antes de mais, haver políticas mais micro.  E que estas sejam aplicadas.