Resignação e auto-revelação

Resignação e auto-revelação

Entre 8 de Setembro de 2018 e 25 de Janeiro de 2019, não se passaram apenas quatro meses e 17 dias. Passou-se um período crítico de transformação da visão da liderança do MPLA. Ou, pelo contrário, passou-se uma fase de auto-revelação que destapou, pelo menos, um véu: o da resignação aos males do poder excessivo.

Quem se lembra do discurso de encerramento do VI Congresso Extraordinário do MPLA sabe que João Lourenço não garantiu apenas reformas profundas no Estado. Prometeu redefinir o partido, inclusivamente nas suas prioridades. E fê-lo com convicção inabalável, chegando ao ponto de recusar os ‘conselhos úteis’ do seu antecessor.

Ao entregar o MPLA a João Lourenço, em Setembro de 2018, José Eduardo dos Santos apelou à união e recomendou que o partido se concentrasse na sua organização interna. Eram as duas condições críticas à manutenção da hegemonia do MPLA, na leitura de JES. Em resposta, Lourenço não só contestou os conselhos de JES, como rebateu a organização interna, com o argumento da necessidade da abertura das portas do MPLA à sociedade.

Para parte da sociedade, claro, o discurso de ruptura assentou como uma luva. Vários analistas precipitaram-se a prever um partido mais aberto, mais democrático e menos conflituante com os interesses do Estado. E todo esse prospecto revolucionário assentava também na ideia-chave de que o MPLA passaria a ter uma liderança menos preocupada em cerrar todas as fileiras no partido. Pelo risco óbvio da criação de novos superpoderosos que instrumentalizariam o país à sua maneira. Ledo engano. Menos de cinco meses após a recusa dos conselhos de José Eduardo dos Santos em congresso, o MPLA anunciou um novo congresso, usando como argumento precisamente os conselhos que João Lourenço recusou: a organização interna, corporizada na revisão dos estatutos e no alargamento do comité central.

Traduzido em miúdos, a direcção do MPLA junta-se a partir de amanhã, em Luanda, para legitimar a resignação da sua liderança aos males do poder excessivo. Ou, dito de outra forma, para repor a verdade histórica que ficou ameaçada nos primeiros discursos de João Lourenço: a verdade de um partido que se move única e exclusivamente ao sabor da vontade do seu líder. É o congresso da auto-revelação.

 

 

 

 

 

 

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