Racismos

Há uns tempos, uma zungueira entregou-me, um saco de frutas que eu queria comprar. Acto contínuo, desapareceu e ‘atirou-se’ a um outro automóvel, que ali abrandava. Esperei, sem pagar. Largos minutos depois, a senhora voltou para receber o dinheiro da venda. Advertia-a que podia ter fugido, com as frutas.  E ela, de rasgado sorriso, lançou-me um muxoxo, com esta sentença: “Não tens cor para fugir!”.

O racismo, como alerta alguns especialistas ouvidos pelo NG, está bem enraizado na sociedade. Tem vários ângulos e vários prismas. Relacionar que uma pele ligeiramente mais clara não possa roubar foi nos imposto pelos colonos, foi a matriz para defender a suposta superioridade.

E nisso toda a estrutura colonial trabalhou muito bem. As igrejas europeias, que aqui chegaram com uma espada numa mão e um crucifixo na outra, trataram de desenhar um mundo unicamente favorável aos brancos. Jesus Cristo, Maria e José e a restante população da Bíblia, com peso político, são brancos. Jesus e Maria, na iconografia secular, até exibem longos cabelos compridos e olhos claros. Nem sequer conseguem ter uma pele tisnada, como são as pessoas originárias da Palestina. O discurso eclesiástico, durante séculos, defendeu a inferioridade dos negros, chegando mesmo, em muitos casos, a classificá-los como produtos do demónio.

Esse discurso tinha a complementaridade na violência, física e verbal, dos colonos. Foram séculos de ditaduras de pensamento que não se apagam em anos, mesmo que sejam vividos em países independentes. E o mais difícil é mesmo mudar mentalidades.

A violência verbal foi também muito subtil. Foi assim que aprendemos que existe ‘ovelha negra da família’, a ‘situação está negra’, ‘serviço de preto’ e outras expressões parecidas, sempre com carga negativa. Ainda hoje resiste a ‘vida mulata’, que é sinónimo de boa vida.

Como dizia o filósofo existencialista francês Jean-Paul Sartre, “o racismo é um estado de espírito patológico, uma forma de irracionalidade, um tipo de epidemia”.

E só pode ser combatido com uma constante luta das nossas mentalidades, com mais cultura e mais educação, para que se tire o racismo de dentro de nós.