Pregar o mal

Na Holanda, país onde quase metade da população é ateia e mais de 70 por cento não é religiosa praticante, as igrejas - monumentos fabulosos e seculares - estão a ser transformadas em livrarias. Lindas, por sinal. Simultaneamente, as cadeias estão a dar lugar a hotéis, porque simplesmente a população prisional vai diminuindo. Ou seja, há menos crimes, menos violência.

Nos países escandinavos, Suécia, Dinamarca e Noruega, assiste-se ao mesmo fenómeno. Há lugares a mais nas cadeias. Assim, vão fechando, os edifícios estão a ser vendidos, os cofres dos Estados agradecem. De notar que os três países são os mais ateus da Europa, com as igrejas a servirem sobretudo de pontos turísticos e passeios pela História.

E por cá? Dados empíricos fazem-me crer que mais de 90 por cento da população frequenta igrejas. E que umas 98 por cento acredita em Deus, batendo no peito diversas vezes por dia e, mais do que isso, declarando que ele “está no comando”, cedendo assim às expressões aprendidas em novelas brasileiras.

Tenho visto muita gente de bíblia na mão, a acená-la como se se tratasse de uma arma. E a citar de cor trechos completos, de fio a pavio.

Ora bem, com tanta religiosidade, com tanta norma bíblica, qual é a explicação para tanto crime, tanta violência gratuita? As cadeias estão sobrelotadas e ameaçam ficar mais cheias. O que se ensina nas igrejas? Será que a leitura da bíblia provoca distúrbios mentais como defendem algumas teorias da psicologia?

Há dias, Angola acordou em choque com a notícia da morte da jovem Carolina, de 27 anos, advogada de profissão, às mãos de um cobarde facínora, que não suportou a sua pequenez, enquanto homem, tal qual é ensinado na igreja. O assassino, recordo, era evangelista. Exactamente: pregava o Evangelho.

“Parem de nos matar!”, tem sido o grito lançado por muitas mulheres. Leiam os comentários nas redes sociais e logo percebem o que é uma sociedade com espírito religioso. Muitos só não as matam, porque elas estão distantes. A esse grito, junto um outro apelo: transformem as igrejas em livrarias, com livros a sério, e terão menos violência e mais solidariedade.