Pontos soltos do discurso

Mais do que projectar o futuro imediato, o discurso sobre o ‘estado da Nação’ repetiu o costume de ocupar-se, sobretudo, com o exercício transacto. Há uma lógica inquestionável nisso. Em termos simbólicos, o discurso de abertura do ano parlamentar é a mais importante comunicação do Presidente da República ao país. E, ao acontecer praticamente às portas do fim do ano, faz sentido que o Presidente apresente uma espécie de balanço da sua governação. É um exercício puro de prestação de contas gerais, pelo que não haveria melhor oportunidade para fazê-lo.

O problema é que esse imperativo formal de apresentação do balanço, e que rouba a maior parte do discurso, contrasta com as expectativas da população que, por via de regra, quer ouvir o Presidente a concentrar-se com ênfase no futuro. Em contextos de verdadeira aflição económica, essa necessidade de se olhar, especialmente, para frente impõe-se ainda com maior exigência. É nesse aspecto em que, em relação a certos temas fundamentais, as expectativas foram goradas.

O Presidente da República destacou, por exemplo, com particular entusiasmo, as ‘conquistas’ do plano de estabilização macroeconómica, no domínio cambial, enfatizando a grande aproximação das taxas do mercado oficial e do paralelo, com menor sacrifício das reservas internacionais líquidas. O que o Presidente não explicou é que ‘não há bela sem senão’. Não reconheceu, em momento algum, que as novas opções da política cambial, ao contrário do passado, significam também, pelo menos no curto prazo, uma verdadeira guerra contra a estabilidade dos rendimentos e contra o poder de compra das famílias. Mais do que isso, o Presidente não disse, com clareza, como pretende compensar essa tendência de queda drástica dos rendimentos, face à elevada exposição do consumo às importações. A ideia do contributo decisivo da produção interna tem de ser percebida necessariamente como uma solução a prazo. Quer pela conjuntura económica e até política que colocou empresas e investidores sob alta tensão, quer pelas insuficiências estruturais que a economia apresenta no domínio do trabalho e do capital.

A parte mais elogiada do discurso, relacionada com os empréstimos colhidos na intensa agenda diplomática, também pecou por defeito. No caso da China, em particular, consciente do histórico de opacidade dos acordos de financiamento com Angola, João Lourenço tinha a obrigação de ir ao detalhe. Tão importante quanto revelar que a China desembolsou mais 6,12 mil milhões de dólares era dizer o que determinam os acordos. Era explicar o custo dessa dívida e as reais oportunidades de negócio que a mesma deverá gerar para as empresas angolanas. Porque nada disso foi explicado, quanto à relação com a China, os esclarecimentos não evoluíram. E, para Angola, a China é somente a China.