Ponto de interrogação

O ex-director-geral da Cobalt Angola e da Roc Oil concedeu uma entrevista ao ‘Valor Económico’, esta semana, e que republicamos nesta edição, de leitura obrigatória. Num momento em que se efectivam mexidas formais nos petróleos, António Vieira destapa reflexões que questionam o unanimismo do que se convencionou chamar reforma no sector petrolífero. É uma verdadeira pregação que mostra a perspectiva menos explorada sobre as ameaças que persistem na indústria e que podem deitar por terra até o optimismo mais entusiasta.

Desde logo, o ponto crítico são as pessoas. Na observação de António Vieira, as lideranças que se encontram na petrolífera pública são incapazes de avançar com mudanças de fundo, porque estas são nocivas aos interesses pessoais que se consolidaram ao longo das últimas duas décadas. 

Nas entrelinhas, a mensagem é clara. Os vícios de monta instalados na indústria petrolífera responsabilizam simultaneamente a Sonangol e as companhias privadas. Ou, parafraseando o então secretário para a Informação do MPLA, Norberto dos Santos, num semanário angolano, em 2007, se há corruptos é porque há corruptores. E entre corruptos e corruptores certamente estabeleceram-se relações de cumplicidade que impedem os desejados avanços, no interesse do Estado.

António Vieira lembra outra verdade dolorosa. As empresas petrolíferas, como quaisquer operadores privados estrangeiros, não andam por cá pelos olhos bonitos de Angola. Estão instaladas nos mares angolanos única e exclusivamente pelo lucro. E até os projectos de responsabilidade social a favor das comunidades só avançam, porque há compromissos formalizados com o Estado. Não é nada que não seja de domínio vulgar. É apenas um facto largas vezes esquecido pelo Governo na defesa dos interesses nacionais, face aos operadores estrangeiros. O nosso entrevistado lembra, com precisão, a forma como as petrolíferas tiraram proveito da fragilidade do novo Governo, ao pressionarem a ‘Cidade Alta’ a ceder, num momento em que João Lourenço mal conhecia os cantos da residência presidencial. 

Mas, hoje, perante uma realidade que se proclama nova, o Governo tem a obrigação moral e material de saber o que quer. Porque jamais serão as petrolíferas a corrigir a perversão afixada na indústria. Pela obsessão pelo lucro, estas vão continuar a exigir tudo e, sempre que necessário, deixarão apenas o osso, como também avisa António Vieira.