Política bipolar

Emídio Fernando

Emídio Fernando Editor executivo do Nova Gazeta

Ficou dado o sinal para que toda a gente perceba: quem crítica, quem não está completamente de acordo com a estratégia, quem ouse levantar um dedo de dúvidas, é afastado.

Lá fora, João Lourenço vai ganhando capital político e conseguiu construir uma imagem de um estadista diferente de José Eduardo dos Santos: mais aberto ao contacto pessoal, mais tolerante, com maior disponibilidade para ouvir sugestões, críticas e ideias e suavemente inflexível na aplicação da sua estratégia.

É assim que a imprensa internacional – e os políticos do mundo ocidental – olha para o Presidente da República e para as mudanças políticas em Angola. João Lourenço está, por outro lado, convencido de que vai captar investimentos estrangeiros e continua convicto que está a transmitir confiança a quem quer investir por cá.

No entanto, há um ‘outro’ João Lourenço. O Presidente da República no seu reduto. Internamente, vai dando outros sinais de que tudo mudou. No entanto, tudo continua na mesma.

No final do ano passado, promoveu um congresso do MPLA, com o objectivo de fazer mudanças na direcção. Poucos meses depois, convoca outro congresso, apenas para dar uma resposta a umas leves críticas feitas pelo secretário-geral eleito, em entrevista a um jornal. Realizado o congresso, Boavida Neto acabou por ser substituído. Nem aqueceu o lugar.

Ficou dado o sinal para que toda a gente perceba: quem crítica, quem não está completamente de acordo com a estratégia, quem ouse levantar um dedo de dúvidas, é afastado.

Outro sinal de dureza aconteceu também em pleno congresso. João Lourenço não escolheu outra forma para contestar a simples opinião de uma empresária do que lhe ‘puxar as orelhas’ publicamente. E foi duro suficiente para passar uma mensagem clara: está atento às críticas, mas não está disposto a acatá-las.

Assim, temos um país bipolar. Há uma Angola para se vender no estrangeiro, há uma Angola de consumo interno.