Paixão de supermercado

Paixão de supermercado

Dorivaldo e Samanta trabalhavam numa loja. Ela já era uma operadora de caixa quando ele foi chamado para estagiar como ensacador, função que consistia em ajudar a colocar as compras dos clientes no saco.

Tímido, com a auto-estima enterrada no subsolo da desconfiança, Dorivaldo achava que a sua posição de caxico nunca lhe permitiria namorar com Samanta. Por isso, o rapaz entregara-se à tortura mais angustiante do mundo: amar em silêncio. O jovem abria a boca apenas para dizer “bom dia, fulana”, embora o coração lhe tivesse dado ordens para gritar “te amo; fica comigo, faxavor”.

Alheia ao sofrimento do outro, Samanta exercia com zelo as suas funções de operadora de caixa. Altamente competente, a jovem era a única a quem o gerente permitia trabalhar sem fazer a contagem do meio-dia, também conhecida por ‘sangria’. Na hora do lançamento, altura em que as lojas fecham para contar o kumbo todo que entrou, ela destacava-se ainda mais. Pois, enquanto a maioria dos colegas apresentava avultadas ‘quebras negativas’, registando, por exemplo, vendas de 200 mil, mas tendo no caixa apenas 180 mil kwanzas, Samanta tinha as contas sempre em dia. Na lista em que se premeia o funcionário do mês, o nome da jovem aparecia 10 vezes. O prémio só lhe escapava no mês em que ela estivesse de férias.

Mas Samanta não era apenas uma grande profissional! Caluanda de origem do Norte, a moça possuía um vitaminoso par de matabelas ao qual se juntava uma cintura de bailarina.

No rosto escuro, decorado com um outro espinho, distinguia-se um narizinho fino e uma boca que parecia nunca ter proferido qualquer palavrão.

E Dorivaldo apreciava tudo isso em silêncio, até que, muito tempo depois, talvez cinco ou seis anos, já ninguém se recorda ao certo, o jovem ganhou coragem.

Confortado com a promoção de que tinha sido alvo, auferindo o mesmo salário que Samanta e trabalhando praticamente no caixa ao lado da mulher dos seus sonhos, Dorivaldo decidiu então declarar-se: “Samanta, eu gosto de ti; de verdade mesmo, a sério!”

A jovem suspirou com gravidade, enquanto o jovem tremia. Os dois tinham o coração bombardeado por um quibuto de sentimeantos que talvez sirvam para outra história, porque esta, a do amor em silêncio, termina aqui!