Mpambukidi Nlufidi, escultor

“Os artistas ganham muito e investem pouco”

Mpambukidi Nlufidi admite que fazer escultura em Angola “é difícil”, principalmente em bronze, um dos metais mais caros do mundo. Acredita que os artistas podem contribuir para as receitas do Estado, mas para tal apela aos ministérios do Ambiente, Turismo e Cultura para ajudarem a desenvolver a arte. Trabalhou mais de 30 anos com José Eduardo dos Santos, ex-Presidente de Angola, mantém-se na Presidência e reconhece ser um artista “caro”. Prevê inaugurar a sua escola de arte e ambiciona formar perto de um milhão de alunos.

“Os artistas ganham muito e investem pouco”
Santos Samuesseca
José Eduardo dos Santos foi o seu "melhor cliente".
Mpambukidi Nlufidi

Mpambukidi Nlufidiescultor

A riqueza de um país não deve depender só do petróleo ou da agricultura, as artes plásticas podem e conseguem mover muito dinheiro.

Mpambukidi Nlufidi, nome que significa ‘encontro da verdade’, em kikongo, é dos poucos artistas plásticos a esculpir em bronze em Angola. Com 60 anos de idade, conta com mais de 45 de profissão e até perdeu a conta de quantos prémios internacionais já conquistou. Por isso, não entende como é que não é premiado em Angola.

O artista, que trabalha para abertura de uma escola de artes e oficinas, nas suas instalações, em Cacuaco, Luanda, acusa os colegas de “fazerem muito dinheiro”, mas “investem pouco”. Confessa que, se tivesse o apoio do Governo, daria formação gratuita. Apesar de já ter percorrido vários países, ainda sente que deve dar mais. “Estou com 60 anos e vou trabalhar até aos 90, quanto mais velho estou, mais experiência e sabedoria adquiro, por isso, vou continuar a trabalhar e aprender mais e mais”, prevê. Para este ano, planeia arrancar com a galeria e a oficina. “Antes de morrer vou formar pelo menos um milhão de pessoas”, promete.

Foi responsável pelos serviços cerimoniais do Presidente da República durante 30 anos. Garante que José Eduardo dos Santos foi o seu melhor cliente e que todos os chefes de Estado que visitaram Angola têm uma peça sua. Actualmente, trabalha com João Lourenço.

Acredita que, “se o Governo desse mais valor aos artistas, o país iria arrecadar mais receitas, pela força que tem a arte”, mas, para isso, aconselha a que se criem espaços e galerias permanentes. “O governo tem de ajudar os artistas a produzir com a implementação de lojas e materiais qualificados e a construção de fábricas. A riqueza de um país não deve depender só do petróleo ou da agricultura, as artes plásticas podem e conseguem mover muito dinheiro”.

“Os artistas ganham muito e investem pouco”

Obras muito caras

Admite que é ‘careiro’, justificando que “a arte não é para qualquer pessoa”. “Dizem que Mpambukidi é muito caro, é normal, porque a escultura não é barata. Os nossos preços são muito reclamados, o problema não é que seja muito caro. Arte é riqueza, porque não perde valor, se o artista tiver a sorte de se tornar famoso, a obra vale mais, essa é a vantagem em comprar uma obra”, reafirma, lembrando “o esforço implementado.”

A escolha do bronze dá-se por ser um dos materiais mais caros do mundo, apesar de estar a ser roubado em grande escala. Mpambukidi acredita que o problema é de quem está a deixar passar a mercadoria no porto, nas fronteiras, porque “o gatuno passa pelo sistema de segurança e não acontece nada”.

O artista lamenta que o custo de produção seja muito caro, há muita dificuldade em adquirir o material, apesar de que, no seu caso, o metal é explorado em quase todas as províncias.

“É difícil quando um artista quer trabalhar e tem de se deslocar para fora do país e adquirir material, tem de se criar fábricas e lojas especializadas. O que faria com que entrássemos para a lei do Mecenato, para facilitar a aquisição de materiais”. “A produção da arte não pode ser comparada à produção do tomate”, refere.

A fraca adesão na aquisição das obras de arte e a falta de apoio das empresas são vistas como “falta de cultura” e também “pouca divulgação dos média, dos ministérios da Educação e Cultura”, que, para ele, têm de trabalhar juntos, pois, deviam implementar a arte nas escolas a partir da primária.

“No domínio artístico, estamos muito atrasados. Não temos galerias permanentes. Nas casas dos angolanos com grande poder financeiro, encontra-se exposições de grandes carros, mas não se encontra arte angolana ou de um artista nacional”, repara. “Pode-se ficar multimilionário, se não tiver educação cultural nunca se investe em arte.”

O artista analisa que a falta de escultores se deve ao facto de a arte exigir muitos sacrifícios e etapas. “Pode-se pintar um quadro em duas horas, mas escultura não se faz em duas horas, tem várias etapas. O pensamento, o desenho, montar a armadura, passar na argila, gelo, fundição e o barro”.

Bienal e cidade sem encanto

Mpambukidi Nlufidi acredita que “Angola tem condições para realizar uma Bienal de Artes”, de dimensão internacional, mas atira essa responsabilidade para o Ministério da Cultura. Critica que se esteja a perder o encanto da cidade, “Luanda está a perder o encanto decorativo”. Aponta a falta de rotundas embelezadas que deviam servir de cartão postal, não só para os noivos que já se acostumaram a fazer fotografias, mas também para os turistas.

Critica também as novas instalações da maior feira de Luanda, a Filda, por não ter nenhum chamariz. “A rotunda é linda, mas não tem nada. Quando pensaram que se devia passar a Filda para lá, já deviam começar a fazer a jardinagem e criar aspectos decorativos mais atractivos.”

Se pudesse gerir o Ministério da Cultura, começaria a dar formação cultural. Entende que todos têm de saber a definição de cultura. “Não sabemos a definição de cultura e deixamo-nos aculturar, porque não podemos preservar e valorizar o que não sabemos.”

“Os artistas ganham muito e investem pouco”

Paixão pela arte

Mpambukidi Nlufidi, de 60 anos, natural de Maquela Zombo, Uíge, formou-se entre o Congo, Gabão e Paris. A paixão pela arte foi-lhe incutida desde cedo, pelos pais, que escolheram a vizinha República do Congo para a sua formação. Optou pela escultura. Membro da União Nacional dos Artistas Plásticos, é também presidente da oficina ‘Mpambukidi Galeria e Arte (MPAGAR)’ – espaço de arte que se dedica à descoberta de novos talentos. Ganhou diversos prémios, tendo sido escolhido em 1998 como Melhor Artista Africano na Califórnia (EUA) e, em 1994, homenageado na RDC e Gabão. Algumas das suas obras decoram o Banco Nacional de Angola, a Nova Cimangola e o BCI, em Benguela.  Além de Angola, as suas obras fazem parte de colecções individuais nos Estados Unidos, Portugal e Itália, entre outros países. Já participou em várias exposições colectivas e individuais, no Governo Provincial de Luanda, e em França.