Ordem nos jornalistas

Um médico não pode ser proprietário de uma farmácia. Ou de uma agência funerária. Por razões óbvias que se aprendem nos cursos de Medicina. Mesmo que muitos não os cumpram, os médicos regem-se por fortíssimos códigos éticos que deveriam ser exemplares a outras profissões. Como a dos jornalistas.

Nunca entendi por que razão os jornalistas receiam ter as mesmas exigências que as dos médicos. Não só nas questões éticas e deontológicas, como nas profissionais. Nós, infelizmente, transformamos a classe num bordel. Entra quem quer. É inconcebível haver um médico que não saiba para que serve a aspirina ou o que significa um Raio X.  Mas, no jornalismo, há muita gente que não sabe os princípios basilares. Entre eles, os éticos.

Isto vem a propósito do debate que a classe enfrenta, apenas porque a RNA e a TPA querem pôr ‘ordem na casa’. Finalmente. A ideia é travar o regabofe e a promiscuidade, contados às centenas, entre jornalistas que simultaneamente fazem publicidade e/ou assessoria de imprensa ou ainda são empresários.

Um jornalista é quem trabalha, ‘dando’ notícias, num órgão de comunicação social. Com ética. É aqui que não cabe sequer imaginar um jornalista a dar uma notícia das enxurradas de Moçambique e, no minuto seguinte, estar a dizer que a Coca-Cola é a melhor bebida do mundo. É inadmissível que um jornalista informe da decisão da PGR em absolver Norberto Garcia e, minutos depois, escreve um comunicado de imprensa a dar a agenda do PGR.  Ou faça assessoria a um ministro ou de uma instituição. Ou revele a corrupção numa instituição e depois, como empresário, faça negócio com ela.

Um jornalista não pode trabalhar em vários órgãos, mesmo que a palavra ‘exclusividade’ não apareça no contrato de trabalho. É, de novo, por uma questão deontológica.

Para quem não perceba como a ética é pontapeada, basta que faça um exercício: quando souber de uma informação relevante, dá a quem? Se der ao A, claramente prejudica o B. Se privilegiar o B, está a prejudicar o A.

Infelizmente, a classe jornalística angolana não tem uma Ordem, nem sequer um Código Deontológico que pudesse evitar todos os atropelos que se registam. É salutar que a RNA e a TPA queiram pôr ‘ordem na casa’. Ninguém entrou para a profissão com uma metralhadora apontada. Foi voluntário. Como tal, sabia as agruras da profissão, incluindo os alegados baixos salários.