O racismo e o desdém

Depois dos violentos acontecimentos, num dos bairros da periferia de Lisboa, as redes sociais, como não poderia deixar de acontecer, incendiaram-se. Há uma frase, que por lá circula, que merecia um prémio: “Quanto ao racismo, se não vês o problema fazes parte do problema”.

Em cerca de 70 carácter, fica definida uma preocupação que existe desde que o homem é homem. Ou talvez, desde que começou a ter medo do diferente. Sobre o racismo, não haja dúvidas que existe em todo o mundo, nas mais variadas versões. E há uma que é a mais comum: não se trata apenas da raça, mas da pobreza.

Claro que há racismo em Portugal que se manifesta, demasiadas vezes, nas intervenções mais musculadas das autoridades. Já foi mais do que é hoje. Mas não se conhecem ataques policiais nas lojas portuguesas frequentadas por angolanos, nem nas universidades em que mais de metade da população estudantil é africana. Os pretos são todos iguais, mas há uns mais iguais do que os outros.

Basta ler as redes sociais para se perceber que o racismo português tem andado adormecido, negando o que os portugueses sempre teimam em classificar-se: que são de um país de ‘brandos costumes’.

Também por cá emergiu o ódio, o desejo de vingança. Foi uma indignação generalizada que bem poderia ser desviada.

Que me lembre, nunca li tanta fúria indignada contra as condições de vida em Angola, contra as políticas que obrigam a que se emigre e que se viva sob as mais abjectas condições. O que todos nós deveríamos também reflectir - e indignar-nos - é com as razões que levam famílias - as vítimas de racismo em Portugal - a trocar Angola pelas condições sub-humanas, a dormir ao relento, suportando um frio quase mortal.

Como o NG revelou há umas semanas, há cada vez mais angolanos a procurar refúgio em Portugal, indo como turistas em intenção de regressar. Mesmo que tenham de aturar racistas.

Tão grave como o racismo é este desdém pelos pobres. São estas as verdadeiras vítimas dos racismos. E, em Angola, dizem dados da ONU, é metade da população.