O professor que pedia gorgolhó

Gabava-se de ter estudado na URSS. Durante as aulas, reservava sempre uns minutinhos para aquilo a que chamava de “descanso activo”, contando-nos estórias em que, no final, todos acabavam por viver felizes para sempre! 

Nós, os alunos, com a ingenuidade própria da 4.ª classe, ficávamos bué alegres, tipo pessoa que apanhou dinheiro. Então, o professor, tossindo levemente, como se pedisse permissão para um anúncio solene, fazia a pergunta da praxe, queridos alunos, alguém trouxe o gorgolhó?

Nesse instante, a sala desdobrava-se num generoso kubidi-kubidi, que o docente recolhia discretamente, sublinhando sempre a necessidade de nunca dizermos nada aos nossos pais: “O gorgolhó”, dizia o professor, “é um compromisso só nosso, educador e educandos, não vale a pena dizerem nada lá em casa.”

Certo dia, o director-geral da escola, um homem com fama de humilhar os docentes em frente aos alunos, visitou a nossa sala. Como se tratava de mais uma sessão de ‘avaliação de desempenho’, o director não falou muito: cumprimentou a turma e foi sentar-se na carteira das funduras, com uma grossa caderneta, em que fazia apontamentos diversos.

O nosso mestre continuou a leccionar avontademente. No entanto, a dada altura, talvez para impressionar o chefe que o supervisionava, o professor resolveu fazer um “descanso activo”, contando-nos uma estória bué engraçada, o que fez a turma toda se estrebuchar numa incontrolável gargalhada. Até o director-geral, que era um tipo bué mau, desconseguiu de evitar que lhe galássemos os dentes amarelados.

Então, como se sofresse de pavlologia crónica, mesmo sem o docente dizer nada, o delegado de turma julgou que tinha chegado a hora do gorgolhó, pelo que se levantou e, em voz alta, ordenou que todos lhe fôssemos entregar as contribuições para, de seguida, ele passar ao professor.

Ao ver aquela cena, o director-geral começou a espumar. Sem mais nem menos, o chefe saltou da carteira directamente para o pescoço do nosso professor, apertando com força a garganta do outro, enquanto lhe lançava os insultos abomináveis. O professor foi despedido logo ali. Nunca mais ouvi falar dele, até que, na semana passada, isto é, muitos anos depois, me surpreendi ao ver o homem do gorgolho na televisão, falando na qualidade de director municipal da educação!