O pão e o circo

Este primeiro ano da Presidência de João Lourenço tem sido marcado por três vertentes. Uma é a diplomacia económica que lhe permite contactar com investidores e presidentes estrangeiros, com viagens e visitas oficiais, o que lhe dá uma cobertura mediática assinalável, com um séquito de jornalistas a segui-lo.

A outra é o apregoado combate à corrupção e o ataque a quem beneficiou do ‘pote de mel’, - leia-se, gente ligada ao antigo Presidente – o que lhe assegura também uma generosa cobertura mediática, acreditando nós que, no seu gabinete, ninguém foi favorecido por ter ‘padrinhos na cozinha’ ou simplesmente por ser militante do MPLA, ou ainda por ter um currículo de bajulador.

A terceira é o resgate dos valores morais e cívicos, em que não escapam a zunga, as igrejas ilegais e os estrangeiros das cantinas e do garimpo, o que lhe garante, novamente, uma extraordinária cobertura mediática.

Para alimentar ainda mais os jornais, rádios e televisões, chamou ao Palácio os activistas políticos, contestatários dos anteriores governos de que ele, por acaso, também fez parte.

O circo mediático está de tal forma montado que ninguém se lembra de perguntar ao Presidente da República o que é feito da promessa, mil vezes repetida na campanha eleitoral, de criar 500 mil empregos; como estão os hospitais, se têm recebido equipamentos e profissionais à altura que impeçam o número de mortes ou de transmissões acidentais de vírus; que melhorias têm tido as estradas infernais que ligam as principais cidades; se já há novas escolas, por mais pequenas que sejam, que retirem os meninos de salas de aulas feitas de areia e de toros de madeira; e de tantos males sociais de que o país padece.

Como historiador, João Lourenço sabe bem como o Império Romano sobreviveu: alimentava o povo com circo, desde espectáculos musicais a lutas de gladiadores e de animais, enquanto lhe ia cobrando impostos para sustentar as guerras nas terras dominadas. No entanto, os imperadores romanos sabiam como agradar: além do circo, davam o pão. Em Angola, não tem faltado o circo. Haverá pão?