O lado obscuro de Annan

morte transforma-nos em imortais. É paradoxal. Transporta-nos para uma outra dimensão… nas opiniões terrenas. Depois da morte, somos (quase) todos saudosos, queridos, recheados de qualidades difíceis, nalguns casos, de imaginar.
Morre Kofi Annan e chove um coro de lamentos e de manifestas tristezas. Passou, de repente, de um homem simples, um diplomata de carreira, para um herói africano. A verdade é que, em parte, ele bem merece as vénias de África. Afinal, foi o primeiro africano negro a chegar ao mais alto cargo das Nações Unidas (o outro africano foi o egipcío Boutros Boutros Ghali). E foi o impulsionador do Fundo Global de combate a várias doenças, como a malária.
Mas Kofi Annan tem um lado mais obscuro. É preciso perceber como chegou até à liderança da ONU e que compromissos teve de fazer. Com a anterior eleição nas ONU, ninguém chegaria a tão alto cargo sem o apoio das potências dominantes, em especial, dos Estados Unidos. Foi aqui que caiu a nódoa na carreira.
Kofi Annan fez toda a carreira na ONU. Foi subindo degraus, desde director na Organição Mundial de Saúde até chegar a liderar as operações de paz da ONU, antes de comandar a organização. Foi nessa altura que África escreveu uma das páginas mais negras da sua história.
Em 1994, deu-se o genocídio do Ruanda que ceifou a vida a mais de 800 mil pessoas, em estimativas conservadoras. Há organizações que apontam para mais de um milhão de mortos. Nessa altura, era Kofi Annan o responsável pelas manutenções de paz. Bastava ter usado a palavra ‘genocídio’, quando o massacre começou e já era evidente do que se tratava, para obrigar a uma intervenção militar.
Mas não o fez. Não quis perturbar os orçamentos de norte-americanos e europeus. Dito de outra forma, evitou o confronto com os Estados Unidos, quando já era apontado como favorito para o cargo mais importante.
Isso acabou por pesar-lhe na alma, como ele reconheceu várias vezes, sobretudo quando resolveu pedir desculpas pela omissão. Foi tarde. Custou muito caro. E é quase imperdoável para um secretário-geral africano.