Nuvens negras

Há muito que Angola espera pela entrada do Fundo Monetário Internacional (FMI). Uma expectativa que se assemelha às grandes produções cinematográficas: o filme-catástrofe. Tudo tranquilo numa localidade e cria-se um ambiente em que, a qualquer momento, sabese que pode surgir uma onda gigante, ou uma nuvem preta ou invasores extra-terrestres montados numa colossal nave espacial.

Estas imagens de terror, no caso do FMI, são traduzidas por outros sinais. Este ano, já se começa a perceber, vai ser o da catástrofe. A nuvem negra começa a dar os primeiros sinais.

As regras do FMI, em todo o mundo, são simples: cortar o que chama as ‘gorduras’, como apoios sociais e a intervenção do Estado, aumentar impostos e vender tudo o que possa ser estatal. A história das intervenções do FMI, directas ou mais suaves como se pretende que seja em Angola, assim o têm demonstrado.

Todos os dias, somos acenados com a obrigatoriedade - tanto moral como legal - de pagar impostos. E cada vez há mais taxas. Paulatinamente, há quem avise da iminência de um aumento do preço de combustíveis que poderá levar às imediatas subidas dos produtos alimentares e, claro, dos transportes.

Esta semana, fomos surpreendidos com a possibilidade de, no próximo ano, haver propinas nas universidades públicas. Ninguém ligado ao FMI abordou (ainda) sequer o tema, mas o Governo entende que deve ser mais ‘fmiista’ do que o FMI.

A justificação passa pelas dificuldades financeiras, em tempo de crise,  e a incapacidade das universidades sobreviverem apenas com o dinheiro do Orçamento Geral do Estado. A medida segue, no entanto, uma lógica meramente capitalista. O que demonstra claramente que o MPLA está cada vez mais afastado do povo e das preocupações sociais e cada vez mais próximo dos ditames dos mais ricos.

Sem as tais propinas, já há estudantes a ‘trancarem’ matrículas, porque simplesmente não conseguem pagar o táxi, além de precisarem de se alimentar por que “saco vazio não fica em pé”. Portanto, é fácil imaginar como será quando houver propinas. A nuvem negra é mais catastrófica do que se imagina. E o Governo vai ajudando a que se cave, ainda mais, o fosso entre os mais ricos e os mais pobres.