Não comunicou, rua! Ok

O argumento da exoneração de Carlos Saturnino da presidência da
Sonangol abriu um precedente louco na governação de João
Lourenço. A partir de ontem, 8 de Maio, qualquer governante ou
gestor público que cometa uma falha grave de comunicação tem de
ser exonerado. A menor hesitação do Presidente, perante situações
comparáveis, colocará em causa a justeza no afastamento de
Saturnino. E, mais grave do que isso, jogará por terra a narrativa da
coerência e da transparência com que a governação nos brinda na
proclamada nova Era.
Os factos de domínio público falam por si. Da reunião convocada
pelo Presidente, na manhã de 7 de Maio, para se informar sobre a
crise dos combustíveis, saiu a conclusão de que o problema foi a
falta de comunicação entre a Sonangol e certas instituições do
Estado. Na tarde do dia seguinte, a Casa Civil comunicou a
exoneração de todo o conselho de administração da petrolífera.
Mas, com a recondução de quase todos os outros membros, ficou
claro que o principal visado era Carlos Saturnino. A Casa Civil não
acrescentou qualquer explicação à anteriormente dada para justificar
a decisão do Presidente. Para todos os efeitos, é mesmo a falta de
comunicação que ditou o afastamento do presidente da Sonangol. E,
para todos os efeitos, a Sonangol foi a responsável por essa falta de
comunicação. Nem o Ministério das Finanças, nem o Banco
Nacional de Angola poderiam ser responsabilizados. Só e somente a
Sonangol e o seu exonerado presidente.
Isso leva-nos, claro, a outro problema. Tomando em conta a
decisão do Presidente da República, a Sonangol, senão mentiu, pelo
menos, omitiu as verdadeiras razões da crise dos combustíveis.
Estamos recordados que, dias antes da exoneração do seu
presidente, a petrolífera justificou a seca do gasóleo e da gasolina
com a dificuldade de acesso a divisas e com a avultada dívida de
clientes, em que se incluem instituições do Estado. Na aritmética
restrita do negócio, as duas explicações combinadas até fazem
sentido. Se a Sonangol adquire os derivados do petróleo de
fornecedores internacionais, precisa de divisas para fazer os
pagamentos. E, para ter acesso a divisas, precisa que os clientes lhe
paguem os kwanzas. Não havendo nem uma, nem outra coisa, era
lógico que as bombas secassem.
Mas, pela sua decisão, o Presidente deu a entender que a gestão de
matérias sensíveis do Estado obedece a outras lógicas que não as
meramente economicistas. É um raciocínio correcto. Porque,
independentemente das razões de fundo que explicam as dificuldades da
Sonangol em gerir o dossier dos combustíveis, a solução jamais seria o
cruzar dos braços para aproximar o país do caos. Está claro: falhou
gravemente na comunicação, exonerado. O Presidente que fique
descansado. A sociedade estará atenta para o ajudar a activar a
memória, sempre que um gestor seu falhar gravemente na comunicação.