Lágrima de viúva

Lágrima de viúva

Na minha terra, nunca foram de crocodilo. Explico as de crocodilo. Mesmo que uma dor ou saudade lhe arranque lágrimas, jamais serão vistas, pois ele vive na água e o fluido lacrimal é, imediatamente, arrastado pela corrente. Por isso, se costuma dizer, aos inimigos que fingem chorar ou aqueles que simulam um comportamento inespontâneo, que “soltam lágrimas de ngandu”.

No Kwanza-ao-Sul, não! Uma viúva que é, de facto, viúva, que tenha coabitado e produzido frutos amorosos com o seu de cujos, chora e verte lágrimas espontâneas dias sem fim, até que o rasto delas seja de todos visível como um leito de um rio intermitente, ora seco, mas com riscos a marcar a passagem de água, ora inundado. 

A senhora que tenha perdido o cônjuge, chora, evocando aos que partiram antes que o recebam na graça. Enumera os seus entes queridos partidos e aos quais distribui preces e recados. Mas é o seu amor finado a causa de todos os prantos. E chora em cada alvorada, cada aurora e quando a saudade bater.

– Pai do fulano (assim se dirige uma mulher ao marido), cumprimenta o meu pai. – Quando encontrares o mano sicrano, dá-lhe também meus cumprimentos e não esquece avisar o tio Beltrano que a kasule dele já tem ‘chucha’ e está quase a ser pedida em casamento – recomenda no seu choro cantado e acompanhado, sempre, de fartas lágrimas. 

Quem se deleita com esse choro permanente, manhã e entardecer, é a criançada inocente, que marca as horas do “canto da viúva”, e se pergunta:

– Porquê desse esforço e  agenda de choro da ‘kabulungu’? 

Mas ela, acompanhada de uma idosa ou em solilóquio, até a última visita abandonar a residência, já dias avançados ao komba ditôkwa (varrer as cinzas das fogueiras diurnas e nocturnas, para dar por encerrado o óbito) chora com fartura. Lava a boca, mas não o rosto. Lava o corpo, mas não a cabeça. E, até ao último dia, em que a viúva é ‘solta’ para com as de sua intimidade ir ao rio, ir à lavra, à faina e a outras tarefas, ela mantém aquele leito seco no seu rosto deixado pelas lágrimas.

– Mana fulana chorou bem o seu marido.

– Mana fulana nem vimos as lágrimas (em favor) do marido.

– Mana beltrana eram só gritos de kapuka. Lágrima que é lágrima nada!

São os comentários que se ouvem depois do óbito terminar.  Mas, afinal, sentimento está nas lágrimas? Quem não tem ‘kinduli’ (rasto de lágrimas sobre o rosto) não chorou? Não sente saudade e ausência? Não é viúva digna desse nome?

Minha mãe chorou meu pai até se ‘cavar um rio’ sobre seu rosto. É parte de nossos hábitos e costumes, já em desuso. Até hoje, ela ainda se recorda de seu António como se tivesse partido há poucas semanas, quando já lá se vão perto de quarenta anos. 

Só não sei e nunca consigo entender o porquê daquelas lágrimas!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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