Kissângua da revolução

Em certa aldeia de indígenas, no tempo em que os colonos governavam Angola, havia uma senhora famosa por fabricar kissângua de boa qualidade.

Kissângua da revolução

Mamã Lumengo, como lhe chamavam os autóctones, gozava da estima e admiração de muitos jovens, adultos e crianças, que lhe invadiam a casa com quibutos de bidões ou panelas a fim de comprar (ou mesmo implorar para levar de borla) umas doses generosas daquela bebida bem kuiosa.

Viúva, e com cinco filhos para criar, Lumengo não levou muito tempo para perceber que o sucesso da sua kissângua podia ser usado em benefício da luta pela independência. Por isso, a cada jovem ou adulto que a visitasse com o objectivo de comprar a bebida, a senhora lançava um olhar examinador e, ao fim de algum tempo, murmurava-lhe certas palavras de ordem ou até mesmo códigos que havia aprendido com o falecido marido, também ele um defensor da liberdade.

Nas tentativas para se juntar à luta de libertação, Lumengo era bastante atenta e persuasiva: se houvesse da parte do cliente examinado uma reacção positiva, a viúva explicava-se, eu quero ajudar, mano, tenho boa memória e sei guardar segredo. Se o outro continuasse na dúvida, Lumengo, então, contava como havia ajudado o marido, um grande patriota, mas infelizmente executado na calada da noite por uns colonialistas ressabiados que não gostavam que o outro fumasse a sua liamba avontademente. “Se tiveres qualquer recado”, dizia a senhora, “fala comigo para eu passá-lo aos outros, porque todos temos de entrar nesta luta para vencermos os imperialistas”. Ao fim destas palavras, registava-se um caloroso abraço e, com canecas de kissangua no ar, dava-se um brinde à liberdade, fazendo-se um grande esforço para se conter o desejo de sair à rua para gritar “abaixo o colonialismo!”. 

Admitida entre os homens e mulheres que lutavam pela libertação de Angola, Lumengo continuou a vender kissângua, ao mesmo tempo que passava recados codificados, prevenindo os companheiros sobre as investidas das forças invasoras ou servindo de correio para as mensagens estratégicas. Em pouco tempo, a viúva estava tão envolvida no projecto, tão comprometida com a causa dos angolanos, que não havia ataque ou missão de sabotagem dos guerrilheiros de que ela não tivesse conhecimento.

Por isso, quando os caingas opressores começaram a investigá-la por “suspeita de apoio a actividades terroristas”, a viúva debandou, mas na sua alma, inundada da alegria de ter contribuído para o sucesso da revolução, não havia um pingo sequer do medo que costuma caracterizar os fugitivos.