Inversão de papéis

O debate sobre a implementação das autarquias está a provocar uma troca de argumentos que se deve acompanhar com muita atenção. Em especial, entre os partidos. Além de tentarmos perceber ao que vêm e o que querem é bom reparar na clivagem ideológica. Sobretudo entre o MPLA e a UNITA. Mas, curiosamente, assiste-se a uma inversão de papéis. Ou o que era noite ontem passou a ser dia e o que era dia passou a ser noite.
A defesa do poder local democrático, com a criação de autarquias, dando mais voz aos cidadãos e aproximando, cada vez mais, os eleitos dos eleitores nas comunidades é um bandeira, de longos anos, da esquerda ideológica. Dos comunistas.
A UNITA, que sempre se arvorou como combatente anti-comunista, usa hoje precisamente os mesmos argumentos – para não se ir mais longe – do Partido Comunista Português. Com as mesmas palavras, as mesmas expressões dos comunistas portugueses. Até nas acções, não faltando as sessões de esclarecimento às quais o partido de Isaías Samakuva chama de “formação de militantes”.
Por outro lado, o MPLA, partido apoiado pelos comunistas portugueses desde a primeira hora, opta hoje por argumentos dignos da direita ideológica mais acérrima da Europa e das Américas. A criação de autarquias, além dos cuidados compreensíveis para se evitarem os tribalismos e as tentações separistas, é, para o MPLA, uma questão de sobrevivência. As ‘barbas’ dos vizinhos sul-africanos e de moçambicanos revelam que as eleições, também por cá, podem ser trágicas para o MPLA. Ou seja, o partido usa um tacitismo típico dos partidos de direita que dá mais importância à permanência no poder do que nos interesses dos governados.
Apesar de ter nascido numa amálgama ideológica, entre ideias maoistas e os ideais da democracia europeia, com uma mistura de ditadura latino-americana, a UNITA ergue hoje a bandeira comunista na defesa das autarquias.
O MPLA, formado no socialismo-científico, fortemente influenciado pelo marxismo-leninismo, é hoje um partido de direita, infelizmente não apenas no pensamento sobre as autarquias.