Interesses superiores

Nas relações entre Angola e Portugal, basta haver um espirro para que toda a gente comece a conjecturar que há uma gripe grave. Nem que seja por causa de uma indumentária - como aconteceu com António Costa à chegada a Luanda num ‘fait-diver’ que não passou disso mesmo - tudo pode servir de pretexto para lançar bombas numa relação, já ela, complicada. Há motivos históricos para isso, mas também há emoções demasiado à flor da pele.

Do lado português, há uma vastíssima camada social e política que ainda não se conformou que Angola seja independente. Após 40 anos, mantém a ilusão de ainda terem as províncias, como chamavam, ultramarinas. Para essa camada, Angola foi sempre a ‘jóia da coroa’. Ter perdido um bem tão precioso é uma ferida que custa a sarar.

Durante anos, houve um contra-poder que ia minando as relações institucionais. Primeiro, por razões ideológicas em que os interesses, em Portugal, norte-americanos e do mundo ocidental eram mais importantes do que os interesses políticos e económicos dos próprios portugueses. Daí que, com alguma regularidade, subiam de tom as ameaças de corte de relações. O que, de facto, nunca veio a acontecer.

Tanto do lado angolano, como o do português, havia um certo interesse em manter essa ‘nuvem’ ameaçadora. Angola também não foi inocente, assumindo, por vezes, um complexo de inferioridade irritante em relação a Portugal. Outras vezes, uma sobranceria injustificável.

Pelo meio desse arrufo de ‘namorados’, e indiferente a ele, angolanos e portugueses construíram relações bem mais estáveis. Portugal é hoje uma autêntica plataforma de angolanos, quase uma segunda pátria. Tanto que é impossível calcular o número de angolanos que ali vivem. Grande parte tem dupla nacionalidade, outra parte tem, por lá, filhos a estudar ou mudou-se em definitivo.

Angola acolhe hoje milhares de portugueses, muitos deles quadros jovens, sem o pensamento com resquícios coloniais. E muitos mais gostariam de se mudar para cá.

É esta ‘pesada’ responsabilidade - a de pensar primeiro nos interesses das pessoas - que as autoridades angolanas e portuguesas devem colocar em primeiro lugar. E atirar para o lixo os interesses (mesquinhos) políticos.