Ingerências

O que liga Angola à Venezuela é precisamente o que leva aquele país latino-americano a sofrer a enorme pressão dos EUA e da Europa: o petróleo. Fosse a Venezuela um país sem as reservas petrolíferas que tem - ‘só’ as maiores do mundo - e ninguém daria importância à política que por lá se pratica.

A ousadia da Venezuela é ter no poder alguém que se recusa a seguir os ditames norte-americanos. Apenas e só isso. Se, de facto, os EUA - e os seus aliados e fiéis seguidores europeus - estivessem preocupados com a democracia há muito tempo teriam rompido com a Arábia Saudita e com ameaças de intervenção militar. Mas os ‘democratas’ árabes têm a habilidade, nesta nova Ordem Mundial, de serem amigos dos países ocidentais. Além de facilitarem na venda de petróleo, são cúmplices no negócio de armas.

Na Venezuela, os EUA aplicam uma velha receita com mais de 200 anos de vida, quando não gostam do poder de um determinado país. Primeiro, tentam um golpe de Estado, usando todos os estratagemas, até os mais obscuros. Em caso de derrota, aplicam sanções económicas por mais gravosas que sejam para as populações. E finalmente tentam o ‘golpe constitucional’, inventando um fantoche. E é isso que acontece na Venezuela, com Juan Guaidó, um tipo arregimentado pelo vice-presidente norte-americano e que se destacou por liderar a extrema-direita e por defender a violência nas ruas. É uma simples marioneta.

O que se passa na Venezuela deve servir de exemplo a Angola. A ‘amizade’ com os EUA, com menos de 30 anos, não é garantia de que, um dia, não possamos vir a sofrer a mesma ingerência e nos ser aplicada a mesma receita. Afinal, também temos petróleo. E Angola conhece bem, antes de 1994, o que foram as ingerências dos norte-americanos. País prevenido pode bem valer por dois.

Por isso, é salutar que o Governo não tenha alinhado na deriva de pressionar o único presidente eleito da Venezuela, Nicolás Maduro. Temos relações diplomáticas de décadas e que foram reforçadas com acordos assinados o ano passado, já sob a presidência de João Lourenço.

A Angola resta a decência de não se imiscuir em assuntos internos de outros países, da mesma forma que os condenou quando foi vítima dessas ingerências.