Humilhados e ofendidos

Pela primeira vez, em muitos anos, Angola assistiu a uma revolta popular. Há gente hoje com mais de 30 anos que nem se lembra de ver uma coisa assim. O povo saiu à rua para confrontar, olhos nos olhos, frente a frente, a polícia.

O povo da zona do Rocha Pinto, em Luanda, muitas vezes humilhado, bastantes vezes ofendido, resolveu não ter medo e revoltou-se. Contra a injustiça por ver, mais uma vez, a polícia balear mortalmente uma senhora. Foi uma zungueira, mas bem poderia ser qualquer outro alvo preferencial da polícia nas inúmeras operações dos últimos tempos.

Houve revolta, mas também emergiu o aproveitamento. De uns tantos, num bairro já famoso pelas dezenas de assaltos e roubos diários, que simplesmente destruíram e roubaram. Veio ao de cima a selvajaria. Desses, já se esperava isso. O que deve ter surpreendido a polícia foi a reacção do povo, habituado a ser ordeiro e temente perante as pistolas e as acções violentas.

A morte de Juliana Kafrique, mãe de três filhos pequenos, zungueira de profissão, pode marcar o dia em que o povo se revoltou. Abriu a ‘torneira’ ao protesto e pode indiciar que as pessoas começam a perder o medo e têm a paciência esgotada. E a expressar o que lhes vai na alma, em bairros onde falta quase tudo, menos a pobreza.

De facto, só não é surpreendente como não tem havido revoltas assim, porque as autoridades sempre tiveram uma enorme capacidade de controlar, vigiar e de nunca hesitar em usar a força. Por mais desmedida que fosse.

A abertura ao protesto e uma maior distensão imprimidas por João Lourenço permitem também os protestos. É o preço da democracia e os sinais dos novos tempos. O Governo fica também a saber que o povo já não quer ‘engolir’ tudo.

Um dia depois dos tumultos, o Rocha Pinto ficou completamente às escuras. Faltou a luz. Não só ali, mas também na Maianga, no Gamek e parte da Samba. Não foi intencional, nem foi a vingança do poder. Aconteceu apenas a rotina diária. Não há portanto surpresas para a revolta.

O MPLA, partido no poder, bem pode ler, com atenção, o hino da Internacional Socialista, organização da qual faz parte, que tem versos que explicam as mágoas de quem se sente humilhado. E ofendido: “O crime de rico a lei o cobre/O Estado esmaga o oprimido/Não há direitos para o pobre/Ao rico tudo é permitido”.