Docentes pedem novas regras e ministra diz que o fenómeno “não é estranho”

Monografias à venda a partir de 100 mil kwanzas

Fazem a pesquisa, definem o tema e as metodologias, além de elaborarem o trabalho. O estudante só precisa de pagar o preço certo, que varia entre os 100 e os 400 mil kwanzas. É a ‘venda de monografias’, fenómeno que, para alguns, “não é estranho”, por se tratar de uma “cultura institucionalizada”, mas que precisa de ser denunciada.

Monografias à venda a partir de 100 mil kwanzas
Mário Mujetes
Autoridades apelam à denúncia.
Carlinhos Zassala

Carlinhos Zassaladocente universitário

Revela já ter recusado propostas de estudantes ou familiares de estudantes que lhe ofereceram até "um milhão de kwanzas" para lhes fazer o trabalho.

Para não ‘espantar a caça’, o jornalista identifica-se com um nome fictício. Ao telefone, refere ter terminado o plano curricular, em 2015, numa instituição de ensino superior (IES) privada. E, por falta de tempo e conhecimento, não consegue elaborar a monografia, daí ter ligado para obter ajuda. No outro lado da linha, o homem, cuja voz remete para um jovem na casa dos 30 anos, avança os procedimentos para a elaboração da monografia: 150 mil kwanzas, pagos em quatro prestações à medida que o cliente for recebendo as partes do trabalho. A primeira parte, explica o jovem, compreende a definição do tema, as metodologias, o referencial teórico e a bibliografia a ser usada. “Tu entregas ao tutor e, caso ele aceite, poderemos avançar para as fases seguintes e tu vais apenas pagando a percentagem correspondente”, enfatiza.

Como o total são 150 mil kwanzas, a primeira parte fica por 37.500. Mesmo que o cliente esteja numa outra província, o pagamento pode ser feito por depósito ou transferência bancária. Para os casos em que o tutor sugere correcções, o cliente pode ‘scanear’ ou fotografar as recomendações e enviá-las (por email ou WhatsApp) ao jovem que lhe faz a monografia para este superar o problema. O procedimento será o mesmo até que se concluam os capítulos todos do trabalho. No final, para evitar que o estudante seja ‘apanhado’, o ‘contrato’ prevê alguns ensaios e a recomendação da leitura de um ou outro livro citado na monografia. O jornalista, sempre mantendo o disfarce, despede-se do jovem (ao telefone) e promete voltar a ligar assim que tiver o dinheiro.

Passam-se cinco dias. O jornalista retoma a ligação, mas já de um outro telefone. E, sob a verdadeira identidade, explica que está a fazer um trabalho sobre a ‘venda de monografias’. Embora quem tivesse atendido o telefone fosse a mesma pessoa de há cinco dias, a voz já é diferente. Nota-se-lhe o nervosismo transmitido pela surpresa. “Não, não é este o método que uso. Funciono apenas como co-tutor”, defende-se, acrescentando que “as pessoas percebem mal” e que o seu trabalho se limita a “indicar os estudantes como fazer a monografia”. Diante da insistência do jornalista, o jovem exalta-se e pede que se lhe mostre as provas que confirmam que costuma ‘fabricar monografias’.

O mesmo argumento é praticamente usado por outro jovem, também contactado cinco dias antes e que assegurou terminar o trabalho mediante o pagamento de 100 mil kwanzas. “Nós apenas auxiliamos o estudante, até porque cada universidade indica um tutor e é ele quem verifica o trabalho”, explica o jovem, ‘embrulhando-se’ quando questionado se considerava legal ou ilegal o suposto “auxílio” que tem prestado. “O senhor tem algum problema com isso? Está a fazer-me perguntas que até já me levam a duvidar se você pertence mesmo a um jornal”, ao dizer isso, adopta um tom quase agressivo, recusando-se a prosseguir a conversa. O jornalista ainda insiste com uma ou outra pergunta, pretendendo saber, por exemplo, o número de solicitações de “auxílios” e se são mais os estudantes das IES públicas ou privadas que recorrem a este serviço. Mas sem sucesso. A conversa já havia terminado.

Para o terceiro caso, o jornalista não precisa de ligar sob identidade fictícia, pois já possui os dados todos. A abordagem, portanto, é directa: “Sabemos que o senhor elabora monografias para estudantes universitários, mediante um valor que chega a atingir os 400 mil kwanzas. Como funciona este trabalho?” Surpreendido, o jovem gagueja e, com algum esforço, interroga o jornalista sobre como obteve o seu contacto, quem falou da cobrança dos 400 mil e para que fins serviriam aquela ligação. Apercebendo-se que se tratava de uma matéria a ser publicada no NG, o jovem limita-se a dizer: “Não estou em condições de falar dos valores ou dizer o que fazemos ou deixamos de fazer”. “Não está em condições porquê’”, insiste o jornalista, levando o jovem a responder com uma frase que encerra a conversa: “É uma questão de segredo profissional.”

Críticas e sugestões

O psicólogo e docente universitário Carlinhos Zassala entende que a venda de monografias em Angola “não é novidade”, que só os cegos e/ou surdos por opção podem negá-la e que o problema reflecte o estado de atraso e desorganização do ensino. “Admitem-se docentes universitários que, na realidade, não têm competência para tal”, acusa o académico, frisando que se trata de um “negócio” que tem início nas próprias IES, através dos docentes.

Professor no ensino superior desde 1980, leccionando actualmente no Instituto Superior de Ciências da Saúde (ISCISA), da Universidade Agostinho Neto (UAN), onde ostenta a categoria de professor catedrático, Zassala revela já ter recusado propostas de estudantes ou familiares de estudantes que alegadamente lhe ofereceram até “um milhão de kwanzas” para lhes fazer o trabalho. Nestes casos, diz o professor, a resposta tem sido explicar-lhe que “bateram à porta errada”. Como sugestão para minimizar este problema, Carlinhos Zassala recomenda, entre outros aspectos, que se motivem os professores que orientam os trabalhos de fim de curso, atribuindo-lhes os respectivos subsídios, e se implemente o sistema de controlo e verificação de trabalhos já defendidos, recorrendo-se às novas tecnologias de informação e comunicação.

Mas as críticas e/ou sugestões não vêm apenas de docentes mais velhos. O jovem Deodato Francisco, que lecciona na Universidade Lusíada de Angola (ULA), considera “cada vez mais preocupante” o índice de casos de compra e venda de monografias, inclusive dentro das IES. Criador do Centro de Ajuda Académica (CEAAC), que possui uma média anual de 280 formandos sobre técnicas de investigação científica desde 2015, Deodato Francisco avisa que “o problema não é exclusivo de Luanda”. O docente aconselha as IES a criarem departamentos de investigação científica “mais actuantes” e que se foquem no apoio aos estudantes finalistas, ajudando-os na avaliação, correcção e orientação de trabalhos académicos.   

Por sua vez, a jurista Ana Paula Godinho prefere centrar a abordagem a quem solicita este serviço e não propriamente aos ‘vendedores’, referindo que, se tivesse de decidir num caso destes, retiraria o título de licenciado, mestre ou doutor a quem o tivesse obtido por esta via. Sem citar em que penalização incorre quem se envolve nestas práticas, Godinho entende que se está diante de uma “falsidade”, pois “a pessoa passa por algo que não é.”

“Não é estranho”, diz MESCTI

A ministra do Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação afirmou, na semana passada, em Luanda, que, para quem está ligado à docência universitária, “não é estranha” a existência não apenas de empresas, mas também de docentes que fazem a monografia pelos estudantes. Maria do Rosário Sambo (na foto), em declarações ao NG, explicou que se trata de um problema que “não se corrige com decretos”, mas sim com denúncias que sejam “comprovadas” e originem “medidas punitivas” que, além de desencorajarem as práticas, demonstrem quem “este é um caminho errado”. “É uma cultura de más práticas que se foi instituindo ao longo do tempo e que esperamos que não esteja no nosso código genético”, ironiza a ministra, considerando que “não se pode falar” em erradicação deste problema, pois “a natureza humana tem estes males”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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