Kid Mc celebra 15 anos de carreira com novo disco

“Estamos num ambiente que transmite esperança ao povo”

É dos poucos rappers que conquistou um lugar em concursos de de música. A venda de um dos seus discos chegou a ‘arrebentar pelas costuras’ a praça da Independência. Kid Sebastião Manuel, ou simplesmente Kid Mc, prepara-se para vender, neste fim-de-semana, o álbum alusivo aos 15 anos de carreira. Em entrevista ao NG, queixa-se do rap feito actualmente e admite seguir a carreira política.

“Estamos num ambiente que transmite esperança ao povo”
Mário Mujetes
Kid Mc, rapper

Que balanço faz dos 15 anos de carreira?

Positivo. Há muita coisa que podia ter feito, mas são coisas que o tempo se encarregará de resolver. Formei-me com o dinheiro da música. Comecei a cantar aos 18 anos e nunca trabalhei formalmente numa empresa pública. A música alimenta-me até hoje. Um pai quer que o filho se forme, se torne numa pessoa independente, se case e dê frutos. A minha formação, o meu casamento e até a minha posição como cidadão foram custeados com a música. Os angolanos não foram ingratos para o meu talento. 

Porque se considera o David Zé do hip-hop?

Artistas que fazem estilos ligados à juventude têm sempre a tendência de transportar para si nomes estrangeiros. Preferi equiparar-me a David Zé por ser um artista angolano que fez muito sucesso nas décadas de 1950 a 1970 e que é muito respeitado pelos kotas. É uma forma de valorizar o que é nosso, até porque o meu rap é conhecimento, palavra, informação e comunicação. 

 
Sente abertura para cantar tudo o que sente?

Sempre tive, não sei dos outros. Nunca fui impedido de cantar. Sabiam com quem estavam a lidar. Nunca fui desconhecido para os Serviços de Segurança e demais órgãos que implantavam censura. A censura em Angola nunca foi para todos, há uns que cantavam e outros que não podiam cantar. Regozijo-me de ter essa liberdade. As pessoas tratam-me por ‘revu’ porque nunca tive papas na língua e sempre tive coragem de falar o que me vinha à alma. Sabem porque é que nunca me tocaram. E não é porque tenho ‘pai na cozinha’. 

 
Que coisas é que sabiam? 

Não vou divulgar, mas o mais importante é que quero o melhor para Angola e para os angolanos. O meu discurso não era de ódio nem de derrubar quem quer que seja. Os próprios da elite já eram meus fãs e não tinha como ser diferente. Temos um país em que o Estado controla a população. Fui observado durante muito tempo e não encontraram nada que comprometesse a minha carreira e que pusesse em perigo a estabilidade. Cheguei a níveis impensáveis. Em 2011, fui um dos vencedores do ‘Top dos Mais Queridos’ com a música ‘Olhar ao Pai’ e que tem servido de reflexão. É uma das músicas mais tocadas no Dia dos Pais. 

 
Alguns rappers influenciam negativamente os jovens?

Isto é verdade. As suas músicas estão ali, todos ouvimos, e muitas delas, incluindo videoclips, promovem o uso de droga, prostituição e alcoolismo.

 
É como podem ser responsabilizados?

Cada um tem a liberdade de cantar o que quiser. A responsabilidade seria se esses rappers fossem encontrados em vias de facto. Por exemplo, uma coisa é cantar fulano vamos meter a bula, tenho aqui a liamba, vamos todos beber e fumar… até aqui nenhum artista é proibido de cantar. Outra coisa é fazer aquilo que se está a cantar. 

 
Como vê o hip-hop angolano?

Há algum tempo, o hip-hop angolano criou cérebros. Hoje, o movimento cria apenas estrelas. Estávamos numa fase com muita dificuldade social e económica,numa fase em que todos sentíamos na carne as instabilidades do país. Os nossos sentimentos eram ligados ao amor ao próximo e à contestação daquilo que achávamos que estava errado. Hoje em dia, as coisas estão mais estáveis e esses miúdos que começaram a fazer rap estão na fase em que comer pão com fiambre é o dia-a-dia. No nosso tempo, só víamos fiambre na revista. O rap feito agora está fraco de essência, de conteúdo e de conhecimento. 

 
Porquê?

Porque está a ser feito numa fase em que as pessoas vivem mordomias e acham que aquilo é o seu mundo. Durante muito tempo, ficámos sem contacto com o exterior, não tínhamos internet, mas, hoje em dia, já conseguimos ver o que o Chris Brown, nos EUA, está a fazer. Mas há artistas que ainda se preocupam em olhar para aquilo que é a realidade e para as dificuldades que os outros vivem e que se preocupam em transmitir algo de valor. É claro que isso tem muito que ver com a educação que se recebe em casa. 

 
A nova geração procura o Kid Mc?

Ajudo quem quer ser ajudado. Quem não merece, ainda que queira, não terei como ajudá-lo. Há rapazes da nova escola que conversam comigo e dou orientações e seguem o que lhes digo. Independentemente da ‘drena’ que cantam, têm uma ou outra música com conteúdo e conhecimento. Há outros que estão nem aí. Tenho projectos que vão sair pela minha produtora, a Cave Play, para influenciar os artistas a fazerem músicas construtivas e consistentes. 

 
O que pode ser feito para ajudá-lo? 

Devemos tentar entender esses jovens e ajudá-los para que se direccionem para o que realmente querem. Há rappers, mesmo com muitos fãs, que não têm o respeito do movimento tentam fazer alguma coisa para chamar a atenção. 

 
Quais são as suas influências?

Oiço tudo. O que menos tenho são raps. Oiço desde David Zé, Sofia Rosa, Euclides da Lomba, Ângelo Boss, Paulo Flores, Eduardo Paim, entre outros. As minhas músicas têm sido sucessos por causa da palavra e da forma como as construo. Um refrão e um instrumental bom de se ouvir, uma letra boa de se entender. Para chegar a este nível de construção musical, tem de se ouvir muita música, este é o segredo. 

 
Como avalia o contexto sociopolítico do país?

Já precisávamos de um João Lourenço porque os angolanos passaram a acreditar e a olhar para o Governo como um eixo que nos vai direccionar para uma possível maturidade política. 


O que quer dizer?

A nossa política era muito frágil, medíocre. Não era uma política que queria caminhar para a maturidade porque não se importava com os valores sociais, nem com os valores das pessoas. Não havia interesse com aquilo que eram os objectivos e a pretensão dos angolanos. Era um Governo que não estava nem um pouco disposto a melhorar a vida das populações e a condição económica do país. A nossa crise não foi por influência externa. Criámos a crise num momento em que tínhamos tudo para fazer o país ‘explodir’ em termos de desenvolvimento. Houve momentos em que o petróleo chegou a atingir 110 dólares por barril. Tínhamos excedente, muito dinheiro e é exactamente esse dinheiro que, ao invés de ser investido, se levou para o exterior e entramos num colapso económico. Agora é que acreditamos que as pessoas andaram a enriquecer-se com o erário. Estamos num ambiente que transmite esperança ao povo.

Já sente os efeitos do combate à corrupção?

Sinto e todos estamos a sentir. Não estou a dizer que, de repente, tudo mudou, mas agora temos um líder que, pelas atitudes, tem sido patriota. Há uma proximidade ao povo.

Que função gostava de exercer no Governo?

Queria estar numa posição que pudesse ajudar o meu povo da melhor forma. Neste momento, tenho o poder de influenciar, não tenho poder de decisão. Futuramente, quem sabe, poderei seguir uma carreira política.  
 

‘Décimo Quinto Ano’ 

Kid MC prepara-se para lançar, neste fim-de-semana (2 e 3 de Fevereiro), o disco ‘Décimo Quinto Ano’, na Praça da Independência,  a 2 de Fevereiro, e na Casa da Juventude de Viana, dia 3, em Luanda, a partir das 8 horas. O lançamento do disco, com nove músicas, visa comemorar os 15 anos de carreira. Conta com as participações de Leonardo Wawuti, Keyta Maianda, Laton, Sanguinário, Flay Squad, Lucassio e Valércia Zonlaine. Vai ser comercializado a 1.500 kwanzas. 

Comunicólogo no rap 

Kid Sebastião Manuel nasceu a 16 de Junho de 1986, na Huíla. Licenciado em Ciências da Comunicação pela Unia, é considerado uma das maiores revelações do hip-hop angolano dos últimos anos e referência por muitos jovens. Alcançou a fama em 2008, com o primeiro álbum ‘Caminhos’, depois de ser contratado pela produtora Mad Tapes Entertainment, especializada em hip-hop. Em 2017, criou a própria produtora, a Cave Play. O disco ‘O Incorrigível’, de 2010, vendeu 10 mil cópias.

Discografia

2008 - Caminhos

2010 - O Incorrigível

2013 - Sombra

2016 - Dois Lado da Mesma Moeda


Mixtapes’

2009 : Breves Considerações