E agora pergunto eu...

E agora pergunto eu...

Na semana passada, foi o último debate entre os candidatos à presidência da nação mais poderosa do mundo e adormeci no sofá à espera. O interesse naquele debate não é só devido ao facto de os EUA continuarem a deter o poder sobre a economia mundial, porque as principais commodities, como o nosso petróleo, e as reservas internacionais são vendidas e feitas em dólares. O interesse vem sobretudo do facto de os EUA representarem os valores democráticos e do capitalismo que adoptámos como nossos em Angola. Se adoptámos esses valores, convém acompanharmos os seus exemplos mais emblemáticos, aprendermos com eles as coisas boas e, sobretudo, as que devemos evitar.

Poder assistir a um debate entre políticos, com argumentos que tentam convencer o eleitorado, para qualquer angolano é um luxo. Ler críticas fundamentadas e opiniões diferentes sobre questões políticas e que ainda assim conseguem coexistir é um luxo.

É verdade que o debate passado foi uma baixaria de todo o tamanho e que o objectivo de se ouvir propostas e posições de governo falhou completamente, porque Trump transformou o debate num ‘reality show’ – como diz Obama. Mas também é verdade que se tiraram as devidas lições e este último corrigiu essas falhas e obrigou tanto Trump a deixar Biden falar como Biden a ser mais assertivo e a concluir melhor as suas ideias.

Daquele exemplo de democracia, em que todos têm voz, saem, por vezes, resultados diversos baseados não tanto em ideologia emocional (que maioritariamente governa o voto) mas em questões concretas como os impostos por exemplo. O rapper 50 Cent disse que apoiava Trump porque “não estava interessado em passar de 50 para 20 Cent”; não estava interessado no plano de pôr os ricos a pagar mais impostos, isto apesar de dizer que Trump não “gosta de pretos”. Trump é divisionista, fanfarrão e gabarolas (como aliás são muitos líderes populistas hoje em dia), mas não é fã de impostos e por isso muitos endinheirados, emboranão o digam em voz alta, apoiam-no incondicionalmente. Racionalidade financeira acima de emoções partidárias.

Por aqui o voto não tem nada de racional porque não se sabe que planos concretos têm os candidatos, vota-se MPLA ou Unita porque sempre se votou assim ou por falta de alternativas credíveis. Não se sabe o que um ou outro planeiam em termos de políticas concretas, se vão cobrar mais ou menos impostos. E fazer um rewind do debate político é um luxo que não temos, simplesmente porque não temos debates entre candidatos presidenciais sendo queaqui seriam muito mais necessários, já que, em Angola, os poderes do Presidente da República são quase ilimitados. E por isso nós, os eleitores, devíamos poder conhecer os candidatos bem melhor antes de votar neles. Os debates, como muitas outras coisas, deviam ser questão de procedimento institucional porque são as instituições que devem ser mais fortes, não as pessoas ou os líderes, que esses vão e vêm e têm as suas próprias agendas, digam o que disserem.

Os representantes dos partidos que vemos falar, mesmo quando falam em representação dos seus partidos, são relativos, são um recurso usado enquanto tem utilidade e descartáveis a qualquer momento, não vinculam a opinião dos candidatos à presidência. Assim como são descartáveis mas usadas enquanto têm utilidade as brigadas que espalham desinformação e fake-news quer por boatos, por meios que se prontificam para isso e online sobretudo pelas redes sociais.

O líder da Unita queixou-se de que as “oficinas de fake news do MPLA” criaram e puseram a circular falsificações de documentos.E agora pergunto eu de onde sai o financiamento para essas oficinas que empregam gente para espalhar boatos, maldizer, atacar pessoas que não veneram o partido? Sabendo da crise e da dificuldade de destrinçar dinheiro público de dinheiro ‘do partido’ que têm tantas vezes os nossos dirigentes, não serão estas oficinas pagas com dinheiros públicos? É grave tirar dinheiro seja de onde for nesta altura para pagar esse tipo de investida.É vergonhoso. Assim como é vergonhoso que, para lhes dar resposta, se vejam contra-ataques com o mesmo propósito e o mesmo nível. Olho por olho fica o mundo todo cego. A violência deve ser veementemente condenada por todos. Sempre.

Além de faltarem debates de ideias na nossa política, de faltar conhecimento sobre políticas, de faltar transparência, estas demonstrações de mau caractismo, de má índole, de intolerância e incapacidade de respeitar a diferença envergonham-nos, são prova de imaturidade democrática, provas de atraso e de selvajaria.Merecemos todos melhor.

Até aqui leu o conteúdo do espaço “e agora pergunto eu” da rádio Essencial, um dia antes de serem detidos e violentados jornalistas em serviço de reportagem pela Polícia, e de ser obrigada a lembrar que a liberdade e o bem-estar dos meus colegas também se pode tornar um luxo.

Aviolênciacobarde contra jornalistas em serviçoé prova de autoritarismo e de que não se aprende nada, nem com o melhor do capitalismo que imitamos (até porque o Estado continua a controlar tudo, todas as instituições tal como controla a iniciativa privada) e certamente é prova acabada de que não se aprende com os exemplos de democracia. As notícias da repressão da manifestação, feita de forma infantil mas violenta, escudada em normas de prevenção da covid-19 aplicadas horas depois do anúncio, por decreto publicado a meio da noite atabalhoada e desajeitadamente, bem como as notícias da prisão de jornalistas e manifestantes que correram mundo, só contribuem para o triste cartão de visita que veem os potenciais investidores que o Executivo também assumiu que viriam.

E agora pergunto eu, onde está a maior liberdade de imprensa que o Presidente tanto vende lá fora? Onde está mais transparência, menos concentração de poderes, mais democracia?

Promessas que continuamos à espera que se materializem. Até lá vamos continuar a contribuir como sabemos. A informar o público, a oferecer o contraditório e a resistir à opressão.Se há mérito que não pode ser retirado ao chefe de Estado é o de expor a olhos vistosque a falência de valores, a incompetência, o discurso divisionista e sobranceiro, a opressão, a alergia ao contraditório e a violência autoritária não são males de um só homem, ainda que seja o que homem que manda. São males maiores e que o ultrapassam e que a substituição desse homem não corrige.

São males de sistema e é esse que carece de mudanças mais profundas.