Deus, Diabo e o empresário

Nem se havia dado ainda início aos preparativos para o funeral, quando a alma do empresário Leopoldino Mendonça se tornou alvo de disputa entre Deus e Diabo. Falecido aos 60 anos, vítima de um fulminante AVC, Mendonça era oriundo de uma família de crentes, pelo que toda a sua infância tinha sido marcada por uma enxurrada de preceitos religiosos.

Aos 15 anos, começara a pôr em causa a bondade divina, sobretudo depois de flagrar um dos seus kambas a ser libidinosamente apalpado pelo mesmo pastor que, aos domingos, proferia discursos violentos contra a imoralidade. Então, temendo que o instinto ngombelador do pastor o elegesse como a próxima vítima, Leopoldino Mendonça passou a faltar cada vez mais às missas até que, aos 18 anos, beneficiando de uma bolsa de estudo para o exterior, se desligou completamente da igreja.

Muitos anos depois, regressado à banda, já com uma numerosa família constituída e tendo-se tornado num respeitado homem de negócios, Mendonça transformara-se também num herege cujas opiniões trocistas acerca da divindade escandalizavam os mais próximos. Contudo, o ateísmo de Leopoldino não o impedia de ser uma pessoa cívica e moralmente exemplar. Por exemplo, dizia sempre “não!” aos inspectores que lhe invadiam o escritório com propostas para fintar os impostos. Em todas as suas empresas, os funcionários apanhados em esquemas de corrupção, por mais que fosse em benefício da companhia, eram impiedosamente despedidos. Definitivamente, ninguém podia negar que o tipo era, no fundo, no fundo, um bom homem.

Mas agora, como sabemos, ele estava morto e havia necessidade de se saber ser iria para o inferno ou para o paraíso. Por isso, Deus e Diabo mandaram emissários para resolverem o assunto, mas, como o empresário se arrojava em argumentos difíceis de rebater, as duas entidades tiveram de convocar a alma do morto para uma audiência.

O julgamento começou com Deus a querer matar uma curiosidade:

– Caro Leopoldino Mendonça, para si, quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha?

O silêncio que se seguiu foi tão grave que Leopoldino não teve dúvidas: ao responder aquela questão, estaria indirectamente a decidir o destino da sua alma. Por isso, o empresário contestou com um argumento que deixou Deus completamente atrapalhado, obrigando mesmo o Senhor a adiar o julgamento:

- Se o senhor é omnisciente, o que sabe de tudo, porque é que não lê na minha mente a resposta que tenho para si?