Angolanos em fuga

Emídio Fernando

Emídio Fernando Editor executivo do Nova Gazeta

Mais de 40 anos depois da independência, é na ‘metrópole’ [Lisboa] que os angolanos procuram a dignidade e serem independentes. E isso é muito triste.

Há muito tempo que Lisboa – e até Portugal – se transformou numa plataforma de angolanos. Uma placa giratória, em que circulam os eternos e viciados compradores, os empresários à procura de bons negócios, os filhos de quem há muito deixou África, os estudantes e os trabalhadores. É quase uma província nossa. Há zonas em Lisboa, incluindo centros comerciais, que se transformaram em autênticas mini-Angolas, com clientes, simples visitantes e empregados. Ouve-se música angolana, do kuduro ao inefável Anselmo Ralph, um pouco por todo o lado.

Sempre foi assim, mas, nos últimos anos, tem aumentado a população angolana em Portugal, em especial, na capital. Seja ela formada ou sem qualquer profissão. Como o jornal ‘Valor Económico’ já revelou, cresceu a procura por Portugal. Ou para viver, ou para usar o país para dar o ‘salto’ para outras paragens.

Nos centros de identificação lusos, são precisamente os angolanos que engrossam as filas e – infelizmente – são também eles os mais famosos por entregarem documentos falsificados ou simplesmente mal escritos ou mal explicados.

Portugal é hoje cada vez mais o sítio apetecível para um angolano se refugiar. E é esta a palavra certa: refúgio. É o ponto de abrigo de quem quer fugir de várias ‘guerras’. Entram como turistas, mas já com a convicção e a intenção de quererem ficar, aceitando até trabalhos menores. Chegam à Europa e tratam logo de chamar os familiares.

Esta semana, numa das universidades portuguesas das mais prestigiadas, três estudantes, a lutar com doutoramentos, diziam-me que não querem regressar a Angola. Por várias razões. Entre elas, apontavam as mais fortes: “pelo menos, em Portugal, temos sempre água, luz, comida acessível e os hospitais não nos negam assistência”. É precisamente estas justificações que se ouvem repetidamente da boca de quem procura refugiar-se em Portugal.

Ser emigrante não é uma vergonha, bem pelo contrário. Cada um de nós procura as melhores soluções para a sua vida. Mas deve envergonhar um país que continua a não proporcionar as condições mais básicas para se viver: água, luz e saúde.

Mais de 40 anos depois da independência, é na ‘metrópole’ que os angolanos procuram a dignidade e serem independentes. E isso é muito triste.