Abutres

Finalmente, o Governo resolveu pôr ordem nas igrejas e seitas religiosas que proliferam por aí. A intenção, não sendo nova – recordo que o Governo, em 2015, tentou controlá-las –, é louvável.

Primeiro, porque se torna imperioso acabar com a exploração desenfreada. Há pastores que se aproveitam da miséria, a vários níveis, para prometer o céu. Abusam da desgraça que obriga a que se tenha todo o tipo de esperanças, por mais inverosímeis que sejam. São esses pastores que, sentados em cima da miséria, enriquecem, vivem em condomínios de luxo, passeiam as fortunas pelo mundo. São uns abutres, como os classificou, e bem, a ministra da Cultura, Carolina Cerqueira.

Resta saber se, de facto, o Governo vai ter verdadeira coragem de mandar encerrar as igrejas, como ameaçou. Falta fiscalização e não se vê qualquer medida que possa reforçar essa vigilância. Há bairros, só em Luanda, em que casa sim, casa não, existe uma sala de rezar a que chamam igreja. É de se temer que saiam do asfalto e se refugiem, à caça do dízimo, nas zonas mais recônditas dos bairros.

Depois, porque se sabem as muitas ligações que as igrejas estabelecem com o poder. Encerrar algumas delas pode ser uma prova de fogo que o ‘novo’ MPLA não cede a pressões e tem as mãos livres para agir apenas com intuitos políticos.

Mas o problema não termina aí. Cada seita dessas é bem capaz de facilmente arranjar as 60 mil assinaturas exigidas para se tornar legal. E depois? Quem vigia os possíveis desmandos? Quem poderá travar os abutres para que não engordem? Quem poderá evitar que mais abutres surjam?

São essas inquietações a que o Governo deve dar resposta para que a lei não seja apenas letras mortas. Ter mais de duas mil igrejas é inversamente proporcional a ter educação e cultura. Ou seja, quanto mais igrejas houver, mais o povo é inculto e educado. Os países nórdicos da Europa são os mais desenvolvidos economicamente e lideram sempre as tabelas de melhor índice humano e são precisamente aqueles que, no mundo, menos igrejas e menos crentes apresentam. E, já agora, menos crimes ao ponto de encerrarem cadeias. E isso dá que pensar.