A senhora que voava à noite

A senhora  que voava à noite
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Era uma mama leke de origem congolesa. Embora estivesse já a roçar os 50 anos, conservava atributos capazes de rivalizar com qualquer catorzinha. Algumas angolanas, sobretudo as que tinham o corpo rebentado pelo excessivo consumo de birras, fomentavam todo o tipo de mujimbo para descredibilizar a outra. Havia mesmo quem assegurasse que a beleza da senhora se devia ao facto de ela se alimentar de fezes. “Essa langa é uma bruxa”, afirmavam, deixando que o nacionalismo xenófobo lhes inundasse o coração de ódio.

Imune a esse preconceito, a visada esmerava-se cada vez mais nos preparos, exibindo roupas que lhe realçavam as curvas todas, do enorme e dançante quibuto de mbunda às profusas e bem-tratadas matabelas. O único defeito da senhora eram as marcas deixadas pelo velho hábito congolês de clarear a pele com mekako, diprosone, sivoclair e outros venenos afins. “Botika ngayi napakola, ezali nzoto nangayi”, defendia-se, irritando as angolanas, que se estrebuchavam em interpretações conspirativas, xé, feiticeira, fala português, julgando que ela as tivesse ofendido, quando, na verdade, pedia que a deixassem em paz, pois era ela a dona do corpo que se arriscava a contrair cancro da pele.

Como era vendedora do Roque Santeiro, saía sempre de casa por volta das quatro horas. Certo dia, numa madrugada enegrecida pela força do cacimbo, vendo-a deitada na rua, sem roupa e com ligeiros ferimentos na cabeça e nos ombros, um dos vizinhos pôs-se a gritar para o bairro, socorro, socorro, a bruxa segurou mal a vassoura e caiu aqui toda nua, socorro, acordem.

Num instante, o bairro todo estava a espancar a senhora, mata a gaja, é bruxa, costuma voar à noite, mata mesmo, mata, não faltando quem lhe tivesse inventado o crime de roubar maridos. A Polícia, naquele dia, até apareceu minutos depois, mas não chegou a tempo de impedir que a vítima levasse com um bloco que lhe abriu a cabeça de par em par. Como era um crime de todos, a investigação não apanhou ninguém, embora, nos dias seguintes, em todas as casas, corresse o mujimbo de que a coitada da mama leke não tinha nada caído do céu: tinha sido assaltada por uns matulões que haviam tentado violá-la, mas desistiram quando lhes pareceu ouvir gritos de socorro.