A oriana d’entrecampos

A Camponesa é uma ‘tasca de esquina’ cuja sinalética aponta como sendo ‘Pastelaria, cafetaria e snack-bar’. Localizada em Entre Campos, Lisboa, a casa está sempre apinhada, apesar de ter (diga-se) espaço de acolhimento interior minúsculo (para o número de frequentadores), mas sempre bem arrumado de forma a poderem nele caberem mais pessoas sentadas.

À entrada, no largo passeio a olhar para a estação de comboios, um sombreiro acolhe os utentes que preenchem outras mesas com cadeiras. É, normalmente, aqui que se sentam os fumadores e aqueles que ficam por uma bica.

Mas quem faz ‘A Camponesa’ encher o recinto e os bolsos?

Há uma jovem que trata todos os angolanos que adentram o espaço por tio. A jovem simpática que corre de um lado ao outro, conversando e atendendo com mestria, é Oriana e é angolana. Ela sabe quando intervir e quando deixar os clientes em paz. Conhece as dores e, às vezes, age como bálsamo.

Diz que “ganha pouco”, mas a sua simpatia cativante, que faz o espaço encher, proporciona-lhe alguns cêntimos de euros que, ao longo do dia todo, podem pagar uma refeição.

Quando questionada “se não se cansa e se não tem tido dias tristes”, Oriana apenas responde:

- Gosto do que faço e com o sorriso que vocês dizem que esboço encapuzo as minhas mágoas.

Essa jovem angolana, há mais de 15 anos em Lisboa, habituada a ter o cliente como a razão do seu trabalho e de seu sustento, bem podia ser modelo para muitos empregados em hotéis, restaurantes e similares em Angola, que fingem trabalhar ou que erradamente pensam que fazem favor ao utente/cliente. É uma pena que Lisboa fica longe e Oriana é uma apenas, embora se possam encontrar em Portugal outros bons profissionais do ramo da hotelaria, idos de Angola, dada a vocação turística do país.

Pessoas como Oriana devem ser contratadas para formar (formal ou informalmente) angolanos que trabalhem no nosso país nesse segmento de negócio, de modo a conferir qualidade ao serviço que as nossas casas prestam. É que há muito a ciência empresarial comprovou que, para ter uma boa clientela (grande e regular), não basta a qualidade inferida do produto. O serviço tem de ser de elevadíssima qualidade, sendo que esse desiderato é atingível apenas com pessoas que tenham vocação, formação, que gostem do que fazem e que estejam comprometidas com o trabalho.

Oriana mostrou que um bom atendedor de cafés pode, ao fim da jornada, ganhar mais do que um ministro ou deputado.