Djeff e produtor a firmar-se no exterior

"A música electrónica em Angola evoluiu muito nos últimos anos"

É dos DJ mais destacados em Angola. Actualmente é convidado a tocar nalgumas festas ‘mais importantes’ da Europa, com actuações memoráveis em eventos icónicos. Tiago Barros, ou simplesmente 'Djeff', em entrevista ao NG, partilha a paixão que tem pela música, admite ser mais valorizado no exterior do que em Angola. Um dos seus sonhos é tocar no ‘Tomorrowland’, o maior festival de música electrónica do mundo.

| LÚCIA DE ALMEIDA
"A música electrónica em Angola evoluiu muito nos últimos anos"
D.R.
Djeff é DJ e produtor musical luso-angolano

O importante é saber que existe tempo para trabalhar, mas também para viver. Apesar de achar que nunca tive de trabalhar um único dia na vida, porque amo o que faço, tenho de encarar que isto é o meu trabalho e tenho horas para o fazer, para depois então poder aproveitar o meu tempo para viver a vida de forma 'normal', como qualquer cidadão.

Nasceu em Lisboa, Portugal. Em 2008, decidiu viver em Angola. Porquê?

Na altura, tinha terminado o curso de Artes Gráficas e Design, que era o meu objectivo como filho, para com os meus pais. Pouco tempo depois, um tio meu iria abrir uma discoteca em Luanda e eu já tinha a ideia de começar a trabalhar em produção musical. Pareceu-me ser o ‘timing’ certo porque, Angola é um país onde tenho muita família, seria mais fácil arranjar músicos para trabalhar nas minhas ideias. Assim sendo, decidi abraçar o projecto e arriscar a minha sorte.

Como surgiu o interesse pela música? Especificamente, pela música electrónica..

Sempre fui apaixonado por música desde pequeno. O meu pai era militar e passou muito tempo no mar, a viajar. Sempre que voltava, trazia-me música de diversos estilos, então, desde cedo, habituei-me a ouvir diferentes estilos em casa. Já a paixão pela música electrónica, foi através da minha irmã. Ela comprava muitas cassetes e ouvia as músicas alto e bom som, enquanto arrumava a casa. Um dia, houve um tema que se fixou na minha mente e, desde aí, nunca mais larguei…

Em algum momento teve dificuldades por querer se firmar como DJ?

Não tive dificuldade nenhuma pois era algo que, quando descobri, sabia que era isso que queria fazer para o resto da minha vida. A única ‘batalha’ foi conseguir que os meus pais aceitassem essa profissão quando ainda era muito novo e tudo isto não passava de um sonho.

Como vê a música electrónica em Angola?

A música electrónica em Angola evoluiu muito nos últimos anos, já temos vários produtores e DJ a tocar, portanto, agora só falta desenvolver mais.

Quais são as suas maiores influências na música?

Oiço de tudo um pouco, sou apologista de ‘boa música’, não importa o estilo. Logo, seja que artista for poderá ser uma influência para mim enquanto produtor.

Qual foi o momento mais emocionante até agora que viveu na profissão? 

Já tive vários, mas, sem dúvida, que a primeira vez que toquei com o meu ídolo, Erick Morillo, foi muito especial. É alguém que já me inspira há tantos anos. Ter a oportunidade de dividir a cabine com ele é sempre algo que me faz acreditar que se lutarmos e trabalharmos a sério pelos nossos sonhos, é possível alcançá-los.

Recentemente, lançou a música ‘Ocean’ tendo a colaboração de June Freedom, cantor cabo-verdiano, que tem vindo a receber um ‘feedback’ positivo. Sempre quis ou se imaginou produzir as próprias músicas?

Sim, sempre foi algo que fazia parte dos meus planos. A prova disso foi quando me mudei para Angola. Tive de começar do zero, num mercado que me era desconhecido e comecei então a fazer as minhas primeiras músicas. Depois de muitas horas enfiado no estúdio, a bater os meus primeiros 'bits', hoje, já conto com três álbuns de originais, vários singles e 'remixes' para outros artistas.

Muitos que acompanham o seu trabalho, consideram-no o representante angolano da música electrónica no exterior. Considera-se assim?

Limito-me apenas a fazer o meu trabalho. Era algo pensado desde o início e sempre foi o meu principal objectivo, ser um artista internacional. Acredito que seja uma referência para muitos outros artistas e também para o povo angolano. Actualmente, passo a maior parte do tempo a viajar, tenho a oportunidade de fazer o que mais gosto, portanto, acho que isso é o mais importante. 

Tem estado presente nas maiores festas seleccionadas de Angola e até mesmo da Europa. Quais as festas ou eventos em que ainda tem o sonho de tocar?

No topo na lista está o ‘Tomorrowland’, o maior festival de música electrónica do mundo, que, numa das edições, já teve perto de meio milhão de assistentes e mais de três centenas de DJ a actuar, distribuídos por diversos palcos, por vários dias. Os bilhestes são vendidos universalmente e esgotam-se em menos de uma hora. O ‘Tomorrowland’ foi fundado na Bélgica no Verão de 2005, mas, tornou-se numa potência internacional e é anualmente realizado noutros países, incluindo os Estados Unidos. Depois, definitivamente, vem ‘Coachella’, que teve a 20.ª edição em Abril e o ‘Ultra’, claro, entre outros…

Qual foi a sensação de ter partilhado o palco com o DJ Black Coffee, o mais conceituado da África do Sul?

Foi muito bom. Já não é a primeira vez que partilhámos a cabine e é sempre um motivo de orgulho, misturado com admiração, visto que, nos dias de hoje é um dos maiores artistas do mundo de música electrónica.

"A música electrónica em Angola evoluiu muito nos últimos anos"

É mais valorizado em Angola ou no exterior?

Sinceramente, no exterior. Sinto que existe um acompanhamento da carreira, do artista e de tudo o que já foi feito ao longo de todos estes anos. Pelo facto de estar muito tempo fora de Angola, muitas pessoas não se apercebem o que está a ser feito na minha carreira fora do país. 

Como consegue conciliar a música com o resto da sua vida?

A música é a minha vida (risos). O importante é saber que existe tempo para trabalhar, mas também para viver. Apesar de achar que nunca tive de trabalhar um único dia na vida, porque amo o que faço, tenho de encarar que isto é o meu trabalho e tenho horas para o fazer, para depois então poder aproveitar o meu tempo para viver a vida de forma 'normal', como qualquer cidadão.

Formou-se em Artes Gráficas e Design. Exerce a profissão?

Não, feliz ou infelizmente, nunca exerci a profissão. Foi antes como uma missão, para entregar o canudo aos meus pais. Decidi depois tentar viver o meu sonho e aqui estou eu.

Apoia a fusão do kuduro com outros estilos?

Sim, como qualquer estilo, é sempre bom haver esse tipo de colaborações.

Ainda se faz kuduro em Angola?

Sim.

O que o público pode aguardar para este ano? Quais projectos?

Mais música. Nos próximos meses, tenho alguns ‘singles’ programados com umas colaborações muito interessantes.

FILHO DA MÚSICA

Tiago Barros nasceu há 35 anos, em Alverca do Ribatejo, em Portugal. Adoptou o nome artístico e é como Djeff que passou a ser conhecido e estimado em diversos países do mundo, tocando regularmente em França, Inglaterra, Grécia, Holanda, Itália, Croácia e Martinica, nas Caraíbas.

Djeff é DJ e produtor musical luso-angolano, que se orgulha nas origens cabo-verdianas herdadas do pai e angolanas provenientes da mãe. Por isso, para si, “Portugal é casa, Cabo-Verde é família e Angola é única”, é assim que caracteriza o seu ADN, sempre com um sorriso no rosto, quando o faz.

Tem a sorte de não só ter escolhido a profissão, como ter sido escolhido por ela. Curiosamente, os pais conheceram-se numa festa, ao ritmo de boa música e assim, ficou escrito que, algures, no futuro, tocar e criar música seria o destino do filho mais novo.

 

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