A mexer no ninho de marimbondos

Era expectável que a Unita iria aproveitar a oportunidade para criar um facto político com a exumação do corpo de Jonas Savimbi. Se não o fizesse é que seria de estranhar. Não é todos os dias que o partido tem toda a comunicação social com o foco apontado para um seu acto político que acabou por se transformar num acto de massas.

O erro do Governo foi ter aberto essa porta, em nome de uma alegada reconciliação nacional. E deve-se ter assustado quando leu o programa. Ao todo, sete dias, com recepções, música, missas e mais diversas festividades. Uma semana inteira com a Unita a entrar nas nossas casas, via rádio, via televisão. É claramente uma oportunidade de ‘ouro’ que a direcção da Unita nunca poderia desperdiçar.

Mas não vai ficar por aí, naturalmente. A intenção da Unita é transformar Jonas Savimbi num mártir e, como tal, ter um monumento e romarias anuais. Uma espécie de Nossa Senhora da Muxima, em umbundo. Politicamente, o fundador da Unita vai incomodar mais o MPLA, depois de morto, de que quando era vivo.

Angola precisa de um mártir como Jonas Savimbi?

João Lourenço previu mal a dimensão da ‘festa’ e desse gesto de reconciliação. Como historiador, cometeu o ‘pecado’ de não avaliar o passado. Até hoje, ninguém sabe o destino que se deu ao corpo de Adolf Hitler. Os soviéticos tudo fizeram para travar um enterro, evitando que um possível local inspirasse romarias. Até hoje. O mesmo aconteceu com Bin Laden, com os EUA a esconder todas as informações possíveis, e com Saddam Hussein e com Muammar Kadhafi, entre outros. O que o mundo político menos precisa é de mártires.

À apregoada generosidade do Presidente da República, a Unita respondeu com uma manifestação, recorrendo até militantes fardados. Passou um arrepio pela espinha, só com as lembranças que essas imagens trazem. João Lourenço mexeu no verdadeiro ninho de marimbondos.

Mas o Presidente poderia ser mais abrangente no gesto de reconciliação, exigindo que a Unita também entregasse os corpos das vítimas de Savimbi. Pelo menos, dos altos dirigentes como Wilson dos Santos e de membros da família Chingunji, cujo patriarca fundou a Unita, com… Jonas Savimbi. Isso seria a reconciliação mais ampla e verdadeiramente nacional.