A mentira e a história

Há uma imagem que vai circulando nas redes sociais e que coloca qualquer angolano carregado de dúvidas: na entrada para o edifício, onde vai decorrer o congresso do MPLA, figuram cinco rostos. São as fotos de Ilídio Machado, Mário Pinto de Andrade, Agostinho Neto, José Eduardo dos Santos e João Lourenço.

De uma assentada, o MPLA reescreve a história, com o mesmo ‘rigor’ do que antes foi contando sobre quem tinha sido o primeiro líder do partido, no caso, do Movimento.

A decisão de alterar a história nem sequer mereceu um estudo, uma análise, não foi discutida, não foram chamados historiadores, não houve um mínimo critério científico que justifasse a alteração. Bastou uma decisão do líder e, ‘helas’, lá vai o país mudar os manuais de história.

Esse pequeno gesto simboliza bem o poder de quem manda. E como  o MPLA, por mais voltas e alterações estatutárias que dê, continua absolutamente condicionado às decisões e caprichos do líder, seja ele qual for.

Aliás, o aumento do número de membros do comité central, ao contrário do que se poderia pensar, vem reforçar apenas o poder do líder. Nisso, o MPLA, hoje liberal, continua igualzinho aos antigos partidos comunistas do Leste europeu.

Um comité central (CC) com 500 pessoas só impede a discussão de qualquer tema. Os seus membros limitam-se a votar – de braço no ar – às propostas apresentadas pelo líder. Imagine-se que, numa reunião do CC, os 500 membros resolvam falar, cada um, pelo menos, três minutos. Ao todo, daria 1.500 minutos, ou seja, 25 horas seguidas, sem paragens. É exequível? Claro que não. E isso, melhor do que ninguém, sabe quem dirige o MPLA.

Num momento em que o MPLA pretende mostrar que está mais aberto e quer ser renovado, age ao contrário. Numa altura, em que o partido deveria dar uma imagem de união, desfazendo equívocos e quezílias, permitindo discussões abertas, realiza um congresso que se limita a ser uma missa. Um ‘show-off’ para a consagração do líder.

Ah, a propósito, não existe um único documento, carta, bilhete, relatório, um simples papel, que prove que o MPLA foi fundado em 1956. Foi fundado em 1960. Mas o que importa hoje é mostrar que se faz diferente. Que se está a romper com o passado. Mesmo que seja assente numa mentira: a de arranjar mais um presidente do partido.